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Prolina como aliada das plantas na adaptação às mudanças climáticas
A atividade agrícola apresenta elevada dependência das condições climáticas, uma vez que fatores como o solo, a disponibilidade de água e outros recursos naturais são diretamente influenciados pelo clima (FAO, 2016). Embora as mudanças climáticas — especialmente variações de temperatura e regimes de precipitação — possam estender os períodos de cultivo ou viabilizar novas culturas em certos locais, na maioria das situações essas alterações abióticas impõem restrições significativas à produção de alimentos, como exemplificado para o milho e a soja (Figura 1).

Figura 1. Produtividades obtidas em condições ideais (anos 2000), produtividades médias (anos 2000) e decréscimos na produtividade do milho e da soja causados por fatores de estresse. As produtividades médias de milho e soja na safra brasileira de 2024/2025 foram incluídas para fins de comparação. Fonte: CONAB (2025) e adaptada de Bray et al. (2000)
A capacidade de se adaptar às condições adversas é própria de cada genótipo, mas há uma forte influência do estado nutricional das plantas. Assim, o fornecimento equilibrado de nutrientes, aliado ao uso de biofertilizantes, como a prolina, pode aumentar a tolerância das plantas aos estresses abióticos e a produtividade das culturas. Por isso, é importante entender melhor quais são as funções desempenhadas pela prolina, a fim de otimizar o seu uso no campo.
Prolina: funções e benefícios induzidos
Sintetizado a partir do ácido L-glutâmico e da ornitina, o aminoácido prolina é considerado um dos osmólitos (metabólitos de baixo peso molecular que promovem o ajustamento osmótico aumentando a capacidade celular em reter água) mais acumulados em condições de estresse (Hosseinifard et al., 2022). O acúmulo de prolina em plantas expostas a estresses como altas temperaturas e déficit hídrico pode aumentar em até 100 vezes em relação às plantas não estressadas, o que demonstra a importância deste aminoácido para a tolerância das plantas aos estresses abióticos (Verbruggen e Hermans, 2008). Assim, a aplicação preventiva de prolina poderia mitigar estresses ambientais, uma vez que este aminoácido desempenha funções extremamente importantes nas plantas: atua como chaperona (proteínas essenciais que auxiliam outras proteínas a atingirem sua forma tridimensional funcional), antioxidante, equilíbrio redox e síntese de proteínas (Ghosh et al., 2022). Além disso, a forma cíclica da cadeia lateral da prolina e sua afinidade para ligações com íons metálicos atuando como quelante, contribuem para manter a estrutura e atividade das enzimas antioxidantes (Masoumi et al., 2024).
Todas estas funções são fundamentais para reduzir o estresse oxidativo induzido pelo acúmulo excessivo das espécies reativas de oxigênio (EROs), proteger as membranas e organelas celulares e otimizar o processo fotossintético, o que aumenta a tolerância das plantas aos estresses abióticos e a produtividade.
Embora as funções desempenhadas pela prolina sejam essenciais para aumentar a tolerância das plantas aos estresses abióticos, o número de estudos publicados em que o efeito da aplicação isolada de prolina foi analisado em culturas como milho e soja são baixos, especialmente com relação a estresses corriqueiros no campo, como altas temperaturas e déficit hídrico. A grande maioria dos estudos publicados tem avaliado o efeito da prolina na atenuação do estresse induzido pela salinidade. Os estudos publicados ainda apontam que a aplicação de prolina tem ocorrido majoritariamente via foliar e, em alguns casos, via tratamento de sementes (Tabela 1).
Tabela 1. Resultados da aplicação de prolina nas culturas do milho e da soja.
| Tipo de estresse | Aplicação | Dose | Resultados | Referências |
| Milho | ||||
| Salinidade | Via foliar | 30 mmol L-1 | Maior estabilidade de membrana, maior teor de clorofila, maior conteúdo de água, ativação do sistema antioxidativo e maior produção de biomassa. | Naz et al. (2025) |
| Salinidade | Via foliar | 10 mmol L-1 | Maior teor de clorofila e carotenóides, melhora do processo fotossintético, maior eficiência no uso da água e maior produtividade de grãos. | Alzamel (2025) |
| Seca | Via foliar | 30 mmol L-1 | Maior estabilidade de membrana, maior teor de clorofila, maior atividade do sistema antioxidativo, maior crescimento radicular e da parte aérea. | Khan et al. (2025) |
| Seca | Via foliar | 4 mmol L-1 | Maior teor de clorofila, maior eficiência fotossintética e maior crescimento do sistema radicular e parte aérea. | Ibrahim et al. (2022) |
| Baixa temperatura | Via tratamento de sementes | 15 mmol L-1 | Melhoria do processo de germinação das sementes e crescimento das plântulas. | Zuo et al. (2022) |
| Soja | ||||
| Salinidade | Via solução nutritiva | 150 mmol L-1 | Maior teor de clorofila, maior eficiência fotossintética, redução do estresse oxidativo e maior produção de biomassa. | Yan et al. (2025) |
Considerações finais
O uso de aminoácidos na agricultura visando mitigação de estresse e aumento de produtividade tem crescido em anos recentes, mas o número de estudos que avaliaram o efeito isolado da prolina em culturas como milho e soja ainda são baixos, o que pode representar uma limitação para o melhor uso deste aminoácido no campo. Portanto, é necessário conduzir mais estudos nas culturas do milho e da soja para identificar as melhores doses, épocas e locais de aplicação da prolina visando mitigação de estresses — especialmente de altas temperaturas e déficit hídrico. Além disso, é preciso compreender melhor o efeito da interação entre prolina e outros aminoácidos quando aplicados no campo.
Flávio Henrique Silveira Rabêlo
Átila Francisco Mógor
2026 - Abisolo