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A evolução do agronegócio brasileiro e as demandas de qualificação do profissional de ciências agrárias

Resumo

Palestra realizada por Willian Waack – Jornalista e apresentador da CNN Brasil, durante o IX Abisolo Fórum e Exposição realizado em 2022


Transcrição

em frente então agora nós teremos uma mesa redonda com quatro palestrantes e a presença do meu colega William Wack. Nós vamos, esse painel tem como tema recursos humanos e comportamento. O objetivo é discutir as demandas de qualificação dos profissionais da área especialmente aqueles que atuam ou que pretendem atuar no segmento de nutrição vegetal. Neste cenário de grandes transformações do agronegócio brasileiro e promover uma reflexão objetiva das pessoas e instituições sobre as demandas técnicas e comportamentais do futuro. Eu quero pedir a vocês uma salva de palmas ao meu colega William Wack, ele está conosco, vai fazer a princípio, o William vai fazer uma introdução, ou ele vai fazer uma introdução sobre o tema E, logo na sequência, nós vamos convidar os nossos palestrantes para discorrerem sobre o assunto durante dez minutos cada um. Depois nós abriremos aqui um pequeno debate que será mediado pelo meu colega William Wack. William, seja bem-vindo. Obrigado por ter aceito o convite. Obrigado a você. Pessoal, não estou acostumado a dar boa tarde às pessoas, só boa noite. Vocês não querem trocar de lugar, sentar para cá, não? Ficar de costas é o fim da picada. Se eu fosse cantor sertanejo, tô acostumado a dar aquela volta e tava ganhando mais, pelo que dizem, né? Mas é dinheiro público, enfim. Eu tô contratado aqui por serviços profissionais e tenho que dizer a vocês, em primeiro lugar, o seguinte, por razões comerciais profissionais. Eu tô aqui no meu CPF, ou seja, qualquer coisa que eu diga que vocês gostam ou não gostam, é no meu CPF. Nada tem a ver com a empresa de mídia a qual eu presto meus serviços profissionais. Então, como todo mundo hoje tem Twitter e esse monte de outras plataformas que eu nem conheço, se vocês forem fazer alguma referência, nada tem a ver com a empresa a qual eu presto meus serviços. Eu tenho um contrato com essa empresa e esse contrato diz que eu não falo em nome dela. Isso é muito importante para mim comercialmente, ok? A ideia de vir aqui falar para um setor que é o setor que sustenta o nosso PIB no fundo, que é o setor que, aliás, eu já nem uso mais a expressão agronegócio. A gente diz agroindústria por causa do caráter moderno, inovador, sobretudo do ponto de vista da aplicação de tecnologia e, especialmente, se a gente pensa, e a minha função como profissional de comunicação, em grandes empresas de mídia, nas quais eu, tradicionalmente, sempre trabalhei. Trazer para o público a ideia. Por que, como conjunto, o Brasil está estagnado há 30 anos? Estagnado, parado. Nós estamos parados há 30 anos. Provavelmente há mais tempo do que muitos, pelo que eu posso ver aqui das pessoas, e isso é sempre, para mim, um prazer, poder ver a quem eu estou me dirigindo, que não acontece quando a gente tem uma câmara de televisão na frente. Muita gente já nasceu nesse período de estagnação. A minha geração, eu vou fazer 70 anos esse ano, a minha geração ainda viu o tal do milagre do crescimento econômico, ainda viu, se a gente quiser achar aquilo bonito ou não, é outro problema. Mas essa geração, a geração dos 30, a geração quase dos 40, viveu até aqui num país que, no seu conjunto, é estagnado, do ponto de vista do crescimento, apesar do nosso potencial ser tão mencionado e elogiado. E, sobretudo, e esse é o ponto central, do ponto de vista da produtividade e qualificação na mão de obra. Então, voltando ao meu argumento. Quando a gente vai explicar para um público geral, não o público específico que vocês são de um setor determinado, quando a gente vai explicar para um conjunto de pessoas que acompanham mídia, por que o país é assim, mas um setor específico da agroindústria não é assim, ao contrário, sustenta o país. e ano após ano dá demonstrações muito eloquentes de capacidade de aumento de produtividade e de produção sem necessariamente ter que usar mais recursos naturais, extensão de terra ou água ou clima, existe uma explicação na mão evidente. que é, por incrível que pareça para vocês, e isso eu digo da minha experiência como homem de comunicação, escapa da compreensão geral do público, o que que é a combinação? Qualificação de mão de obra, emprego intensivo de capital e tecnologia. Este é o sucesso do setor, no fundo. O que explica essa capacidade de superar recordes, quebrar tabus, o principal deles é conseguir crescer mais com sustentabilidade. O que explica isso é capital, tecnologia e mão de obra. Quando vocês consideram e fazem a vocês mesmos a pergunta, ô William, Como é então que se explica que em um determinado momento da nossa história, e eu estou falando de 50 anos para cá, ok? Estou falando ali dos anos 60, 70 para cá. Nós como país fomos capazes de fazer parte daquele grupo seleto de nações que demonstraram durante um período razoavelmente longo capacidade de crescimento, portanto de geração de prosperidade e emprego. e agora não mais? Por que a gente parou relativo aos outros? Por que a nossa diferença em relação às economias avançadas continua a mesma? de 30 anos atrás. 30 anos atrás, o rendimento médio de um brasileiro, traduzido em dólares, era 25% do rendimento médio de um americano. Hoje continua a mesma coisa e eles passaram por várias crises. Como é que se entende isso ao longo do tempo? Isso tem a ver com o tema que nós estamos tratando nessa tarde aqui. Durante muito tempo, nós, Brasil, pudemos crescer porque nós colocávamos, ano após ano, no mercado de trabalho, uma massa que parecia inesgotável de jovens com baixa qualificação, dispostos a disputar qualquer salário. Acontece que a demografia brasileira mudou e, se hoje a gente quiser crescer, nós vamos ter que preparar essas pessoas, porque nós não temos mais aquela quantidade de jovens entrando todo ano no mercado de trabalho e a qualificação deles era para nós uma questão, infelizmente, encarada como secundária. Agora, inverteu. Ou a gente qualifica essas pessoas, sobretudo os jovens, ou não temos perspectiva de crescimento. A questão da qualificação se tornou o nó crucial para a gente sair da situação em que estamos, que não é boa. E eu não estou falando de eleição, de brigalhada de Bolsonaro com Lula ou quem vocês quiserem, não importa o nome de quem, qualquer deles ou qualquer outro de terceira via ou não terceira via. A nossa situação não é boa e eu adianto para vocês, nosso problema central não é corrupção, Nosso problema central não é polarização política, nosso problema central não é o que vocês possam pegar do debate do dia a dia. A culpa é do STF, a culpa é do partido sei lá o que, a culpa é da política. A nossa situação é grave porque nós temos um déficit monumental de qualificação e preparação de mão de obra em todos os setores, inclusive o de vocês. Esse é o nó brasileiro. O nó brasileiro é a gente entender que outros países que foram capazes de usar isso que os economistas chamam de corredor estreito, não sei se vocês conhecem esse conceito, é um conceito moderno na economia internacional, que ajuda a gente a entender porque alguns países quebram as barreiras, fogem do período de estagnação, crescem e entram para um clube de economias avançados e outros não. Corredor estreito quer dizer o seguinte, a combinação de instituições, recursos, posição geográfica, consciência das elites daquilo que elas querem, é uma oportunidade estreita. Ela não está presente o tempo inteiro, mas ela jamais se realizará se um país não entender a importância da qualificação e formação de mão de obra. Vocês vão dizer, ah, educação, é muito mais que educação, é muito mais do que ter escolas físicas. É muito mais do que ter centros de treinamento, é um conjunto de forças orientadas para imaginar que se a gente não encarar isso como nosso principal desafio, nós vamos estar daqui quatro anos discutindo com sei lá quem que vai ser candidato à presidência, com sei lá quantos deputados que querem sua reeleição ou não, com sei lá quantos governadores ou o que vocês quiserem. Vamos xingar o sistema político, vamos xingar esse ou aquele político, que, aliás, é muito fácil de fazer mesmo, e nós vamos estar frustrados da mesma maneira como estamos hoje, olhando para um país desse tamanho, com esse potencial e se perguntando por que a gente não é mais do que é. Nesse sentido, a experiência de vocês é relevante para o restante do país. Porque, como eu disse inicialmente, para entender o sucesso de um setor, de um segmento da economia, como é o setor da produção de grãos e proteínas, é impossível ver isso sem a qualificação de mão de obra. A minha experiência como recrutador de mão de obra num campo distante do de vocês, mas que sofre com as mesmas mazelas, não é das mais positivas. Quando a gente pensa no número de jovens que estão despejados, particularmente na área que é a minha área, eu não tenho formação técnica alguma. Minha formação acadêmica é no campo das humanas. Eu sou formado em ciências políticas, em sociologia e relações internacionais, campos puramente das ciências humanas. Eu não tenho formação técnica em nada, a não ser pedacinho aí da minha vida privada, que é dedicada à aviação. Eu sou piloto e proprietário de uma aeronave. Para não morrer, eu fui obrigado a dominar alguns assuntos técnicos relativos à pilotagem, que não há tempo de ligar para alguém e chamar o universitário para me acudir se eu estiver lá em cima com o meu avião. Eu tenho que entender do que eu estou fazendo para o Universitário Técnico. Coisa que acontece pouquinho com meus colegas de mídia. A maior parte deles não entende de porra nenhuma, mas aparece sempre com aquele ar generalista de serem capazes de dominar qualquer assunto. Eu tenho essa humildade. Eu confesso ao público diretamente o que eu entendo do que eu não entendo. Mas nesse campo da mídia, a gente tem, por exemplo, as universidades despejando no mercado de trabalho todo ano um número enorme de jovens profissionais, não são profissionais ainda, são jovens estudantes que já terão um diploma de curso superior, disputando vagas raríssimas do mercado de trabalho estreito e cada vez mais estreito, porque o que mais se exige, mesmo nesse campo das humanas onde o conhecimento técnico não é exatamente uma prioridade, baixíssima capacidade de absorção por um mercado que em si não é um mercado altamente especializado. Eu imagino como seja no caso de vocês. Eu, em várias empresas nas quais eu já trabalhei, ocupei essa função do recrutador. Quem é que eu dou uma chance profissional em detrimento de quem que traz um currículo. Acabei de passar por essa experiência agora, não estou falando em nome da empresa, mas estou aqui apenas mencionando o exemplo da Novos Mídia, que é a proprietária da CNN Brasil, que não existia três anos atrás, entrou no mercado, criou um departamento de recrutamento do qual eu fiz parte também. e passou a receber uma enxurrada de currículos. Vocês não podem imaginar a quantidade de currículos. que às vezes deixa a gente até um pouco preocupado, porque dá uma noção para a gente da dificuldade que as pessoas têm, que se mataram para cursar uma faculdade, trabalhando de dia, estudando e se matando à noite. Uma esperança tremenda de conseguir um posto numa empresa de reconhecimento mundial, como é essa para a qual eu presto serviço agora, a marca é muito forte. da CNN, ela atrai o jovem, atrai esse, digamos, estudante preocupado em conseguir um posto no mercado de trabalho e aí bate em alguém como eu, que é o recrutador, que olha aquele currículo e decide, este vai, este não vai. Eu fico chateado, às vezes, à noite, de pensar em quantas oportunidades eu fui obrigado a negar. E a maior parte dessas oportunidades negadas foram em função de falta de qualificação mínima, básica. Não tem domínio do idioma estrangeiro, hoje em dia é inaceitável, não tem domínio no mínimo de inglês, não é que precisa de inglês, é no mínimo inglês. Não domina as técnicas essenciais do exercício da profissão, não consegue escrever em português. Dá para imaginar? Boa parte dos nossos jovens vem carregando um déficit acumulado de qualidade de formação. Eles tiveram escolas públicas melhores na época. Eu, por exemplo, só cursei escola pública a minha vida inteira. Primário, secundário, universidade, só cursei escola pública. Ninguém hoje que disputa um lugar para valer de alto nível no mercado de trabalho consegue mais isso. Nós registramos, ao longo dessas cinco, seis décadas, uma notável deterioração dos nossos padrões de formação, educação e treinamento de mão de obra. Isso cobra um preço. É o preço que nós estamos pagando hoje. O preço que nós estamos pagando significa, em termos puramente econômicos, ou seja, duros, frios, que é no fundo o que acontece numa mesa cheia de currículos, não é mesa não, agora é tela de computador, uma tela de computador cheia de currículos e alguém tendo a decidir quem vai ou quem não vai, a conclusão a qual a gente chega é muito chata. A mão de obra brasileira é caríssima. Não porque ela receba uma remuneração acima do que a gente está acostumado a registrar como remuneração média em países de economias fortes. Estou falando Alemanha, Estados Unidos, Japão, os países ali daquela orla asiática. Não porque os salários nominais sejam tão altos, mas é porque a qualificação é baixa, portanto, o profissional é caríssimo relativo ao que ele recebe. Esse é um fenômeno que assolou, no sentido negativo, boa parte da indústria brasileira, que em outros tempos foi 30% do nosso PIB e hoje é um pouquinho mais que 12%. E a indústria brasileira, em boa parte, deixou de ser competitiva porque o engenheiro alemão custa menos em euros do que o engenheiro brasileiro. Isso não tem a ver com acordos setoriais de remuneração, não tem a ver com consolidação das leis do trabalho, não tem a ver com CLT, que encarece, evidentemente, algum tipo de contratação. Isso tem a ver com esse fenômeno generalizado ao qual estão me referindo. Baixa qualificação de mão de obra é um custo pesado para qualquer economia, ponto. Não interessa de que país nós estamos falando. num país como o Brasil, é tão gritante o exemplo. A agroindústria, a pujança e a capacidade de crescimento e aumento da produtividade dos produtores brasileiros de grãos e proteínas. Ela é um exemplo para o resto do país do que tem que ser feito. Isso significa investimento e, sobretudo, em qualificação de mão de obra. No nosso espaço econômico tomado como conjunto, não está acontecendo. Então, o setor hoje sofre esse gargalo, como outros setores também. Todo setor brasileiro que depende de tecnologia moderna e qualificação de mão de obra está sufocado no Brasil, qualquer setor que vocês pegarem. Vocês pegam indústria mecânica pesada, indústria de transformação, até mesmo o setor de serviços. Se vocês acompanharam hoje, eu acompanho profissionalmente que eu estou 24 horas por dia plugado no noticiário. Não sei se vocês tiveram já a oportunidade de ver a divulgação do PIB brasileiro do começo do ano feito pelo IBGE. Crescemos 1% até aqui, acima das expectativas, onde se deu esse crescimento no setor de serviços que, por incrível que pareça, é um setor cuja qualificação profissional está sendo cada vez mais demandada e menos encontrada. e vocês vão ver os setores, sobretudo, se é de finanças, hotelaria, turismo, setor da indústria aérea, tudo isso resume no que eu queria dizer para vocês no começo. Não é suficiente a gente conseguir sublinhar a importância da qualificação de mão de ordem. A experiência que eu tenho do meu setor, para ser relatada aqui, é dessa certa tristeza, de ver esse monte de jovens esperançosos, sacrificados, criativos, empenhados, empolgados, inteligentes, sofrendo porque tem má qualificação. Agora meu recado final em relação a isso é o seguinte pessoal, isso aí não nos foi imposto por ninguém, o nosso sistema político é assim, porque nós brasileiros desenhamos ele assim, As situações que a gente enfrenta e que nos causam indignação, elas não foram por causa de um invasor de Marte ou de um outro país. Elas são porque a nossa sociedade, por exemplo, nos últimos 40 anos, combinou que a gente faria os gastos sociais subirem sem que a gente cuidasse da capacidade de financiá-los. É isto que nos levou à situação que estamos hoje enfrentando. Nós quebramos. Nós fizemos os gastos sociais subirem ano após ano, governo após governo. Não adianta a gente dizer foi aquele presidente, foi aquela presidenta, foi quem vocês quiserem. Isto foi um consenso social. Vamos fazer os gastos sociais subirem e não cuidamos da capacidade da nossa economia de financiá-los. Não vamos ser bobos diante disso. Quebramos. O que demanda-se hoje é um outro consenso. É sobre o país que a gente quer. E ele tem que começar por esse empenho e essa vontade de preparar essa imensa e formidável juventude que a gente tem. Inicialmente era isso que eu queria dizer a vocês. Muito obrigado pela atenção. Muito bem, meu colega William, vá. Absolo. Por uma produtividade inteligente.

Willian Waack

2022 - Abisolo

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