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Potencial da compostagem dos resíduos agrossilvopastoris para a agricultura brasileira
O CENÁRIO E A OPORTUNIDADE
O Brasil consolida sua posição como potência agropecuária mundial. Na safra 2025/26, a produção nacional de grãos atingiu 354,8 milhões de toneladas, com área plantada de 84,24 milhões de hectares, representando crescimento de 10% em relação a 2020. O agronegócio responde por cerca de 25% do PIB nacional e posiciona o país como o maior exportador mundial de carne bovina, frango e café, além de líder global na produção de soja e cana-de-açúcar.
No entanto, esse alento convive com uma vulnerabilidade estrutural: a dependência de fertilizantes importados. Em 2024, aproximadamente 85% dos fertilizantes consumidos no Brasil vieram do mercado externo, totalizando mais de US$ 15 bilhões em importações. Paralelamente, o setor agrossilvopastoril gera anualmente um volume superior a 3,5 bilhões de toneladas de resíduos orgânicos, que, quando destinados incorretamente, representam passivo ambiental e desperdício de nutrientes.
A compostagem desses resíduos emerge como solução estratégica. Ao transformar biomassa residual em fertilizantes orgânicos e condicionadores de solo, o Brasil pode reduzir sua dependência externa, promover a economia circular, gerar empregos no meio rural e recuperar a qualidade de seus solos, naturalmente intemperizados e pobres em matéria orgânica.
QUANTIFICAÇÃO DOS RESÍDUOS E POTENCIAL DE COMPOSTAGEM
As principais culturas brasileiras (soja, milho, cana-de-açúcar, café, arroz, entre outras) geraram, em suas respectivas cadeias produtivas, um total estimado de 2,6 bilhões de ton de resíduos sólidos na safra 2025/26, considerando os incrementos de produção em relação ao ano-base de 2020.
- Soja:Produção de 177,6 milhões de ton (aumento de 31% sobre 2021), com geração de resíduos de palhada e processamento estimada em 130 milhões de ton.
- Milho:Produção de 138,3 milhões de toneladas (aumento de 38% sobre 2021), com geração de resíduos de palhada e sabugo estimada em 80 milhões de ton.
- Café:Produção de 55,2 milhões de sacas (aumento de 30% sobre 2020), com destaque para o conilon, que atingiu recorde de 20,1 milhões de sacas, gerando cerca de 1,2 milhão de ton de casca e polpa.
Considerando a composição média desses resíduos e o processo de compostagem (com perdas de umidade e mineralização de carbono), esse montante tem potencial para produzir entre 770 e 800 milhões de ton/ano de fertilizante orgânico.
- Resíduos da Pecuária (Criação e Agroindústria)
Criação Animal
O rebanho brasileiro de bovinos totalizou 238,2 milhões de cabeças em 2024, um crescimento de 10,8% em relação a 2019. Desse total, a pecuária de corte confinada respondeu por aproximadamente 19% do abate, gerando dejetos passíveis de aproveitamento. A produção de frangos manteve o Brasil como maior exportador mundial.
A geração total de dejetos das principais criações (frangos de corte, poedeiras, bovinos confinados, suínos) foi estimada em 720 milhões de ton/ano, das quais seria possível produzir 220 milhões de ton/ano de fertilizante orgânico.
- Agroindústria Pecuária (Abatedouros e Laticínios)
Os resíduos de abatedouros de aves, suínos e bovinos (penas, vísceras, sangue, esterco de curral) somam aproximadamente 360 milhões de ton/ano, com potencial para gerar 108 milhões de ton/ano de fertilizante orgânico.
Os lodos provenientes do tratamento de efluentes das indústrias de laticínios, que processam mais de 44 bilhões de litros de leite/ano, totalizam cerca de 165 milhões de ton/ano de resíduo úmido, com potencial para produzir 82 milhões de ton/ano de fertilizante.
- Resíduos da Silvicultura e Agroindústrias Associadas
A indústria brasileira de papel e celulose manteve produção acima de 21 milhões de ton anuais, gerando cascas, lodos biológicos e outros resíduos. O volume total desses resíduos foi estimado em 6,5 milhões de ton/ano, com potencial para gerar 2 milhões de ton/ano de fertilizante orgânico.
TOTAL DE RESÍDUOS E FERTILIZANTES ORGÂNICOS
A consolidação dos dados atualizados resulta em um quadro robusto para o setor de insumos orgânicos.
Tabela 1. Total de resíduos e potencial de fertilizante orgânico por segmento (valores atualizados 2025/26)
| Atividade | Total de Resíduos (t/ano) | Potencial de Fertilizante Orgânico (t/ano) |
| Agricultura e Agroindústrias | 2.600.000.000 | 770.000.000 |
| Pecuária – Criação | 720.000.000 | 220.000.000 |
| Pecuária – Agroindústria | 360.000.000 | 108.000.000 |
| Laticínios | 165.000.000 | 82.000.000 |
| Silvicultura (Ind. Papel e Cel.) | 6.500.000 | 2.000.000 |
| Total | 3.851.500.000 | 1.182.000.000 |
*Elaborada pelos autores a partir de dados do IBGE, Conab e ABPA (2024/25).
Caso todo o potencial fosse aproveitado, o Brasil teria capacidade anual de produzir 1,18 bilhão de ton. de fertilizante orgânico, volume 288 vezes superior às 4,1 milhões de ton comercializadas em 2024. Esse contraste evidencia não apenas um gargalo, mas uma oportunidade de crescimento exponencial para o setor de insumos de base orgânica.
APORTES DE NUTRIENTES E A REDUÇÃO DA DEPENDÊNCIA EXTERNA
A aplicação desse potencial traria ganhos expressivos em termos de nutrientes e economia. Se um terço do fertilizante orgânico produzido (aproximadamente 394 milhões de ton) fosse aplicado nas lavouras, os aportes anuais seriam significativos, conforme Tabela 2.
Tabela 2. Aporte de nutrientes ao solo com a aplicação de fertilizante orgânico e equivalência em minerais (valores atualizados – março/2026)
| Nutriente | Massa no Fertilizante Orgânico (ton.) | Equivalente em Fertilizante Mineral (ton.) | Preço Atual (US$/ton.) | Valor Econômico Atualizado (US$) |
| Nitrogênio (N) | 16.102.671 | 35.783.714 (Ureia) | 672,50 | 24,06 bilhões |
| Fósforo (P₂O₅) | 13.399.398 | 29.129.127 (DAP) | 656,50 | 19,12 bilhões |
| Potássio (K₂O) | 5.862.972 | 9.771.619 (KCl) | 316,60 | 3,09 bilhões |
| Total | 35.365.041 | 74.684.460 | — | 46,28 bilhões |
*Elaborada pelos autores. Preços de março/2026 com base em Indexmudi, CBOT e dados de importação.
A atualização dos preços revela que o valor dos nutrientes contidos nos resíduos agropecuários brasileiros saltou de US$ 22,24 bilhões (valores de 2021) para US$ 46,28 bilhões em março de 2026, um aumento de 108%.
Observa-se que o preço da Ureia, cotação de USD 672,50/ton (Futuros CBOT, 23/03/2026) apresentou alta expressiva, superando os USD 680,00 durante o mês devido ao aumento do custo do gás natural e à demanda aquecida. Já o preço do Fosfato Diamônico (DAP), cotação de USD 656,50/ton (23/03/2026), manteve-se em patamares elevados, acima de USD 700,00 em setembro de 2025, refletindo o cenário de alta nos fosfatados. O preço médio de importação (FOB) do KCl de USD 316,60/ton em janeiro de 2026, representando alta de 25,3% em 12 meses.
Este cenário de disparada dos preços, aliado à dependência brasileira de importações (cerca de 85% do consumo), reforça a tese central do artigo: a compostagem de resíduos agrossilvopastoris deixa de ser apenas uma solução ambiental para se tornar uma estratégia central de segurança nacional e de redução da vulnerabilidade do agronegócio brasileiro.
Diante do conflito no Oriente Médio, que ameaça diretamente o fornecimento de nitrogenados, o aproveitamento dos mais de 3,5 bilhões de ton de resíduos gerados anualmente no país para a produção de fertilizantes orgânicos é uma alternativa economicamente viável e estrategicamente urgente.
Isso demonstra que a compostagem dos resíduos do setor poderia gerar um montante de nutrientes (NPK) equivalente a mais de 74 milhões de toneladas de fertilizantes minerais, representando um valor de aproximadamente US$ 22,2 bilhões. Além do impacto econômico, a reciclagem desses nutrientes reduziria a vulnerabilidade do país às oscilações do mercado internacional e às crises geopolíticas que afetam a cadeia global de fertilizantes.
DEMANDA CONSUMO E APORTES AO SOLO
A área plantada no Brasil na safra 2025/26 foi de 84,24 milhões de ha. Considerando uma dose mínima de fertilizante orgânico de 10 ton/ha para efetiva contribuição ao teor de matéria orgânica do solo, a demanda nacional seria de 842 milhões de ton/ano.
Com o potencial produtivo de 1,18 bilhão de ton/ano, o Brasil teria capacidade não apenas de suprir integralmente essa demanda, mas também de gerar excedentes para exportação ou para aplicação em áreas de recuperação de pastagens degradadas e agricultura familiar.
O estoque de carbono orgânico do solo (COS) na camada de 0-30 cm na maior parte do território nacional varia entre 4,9 e 41,5 ton/ha. A aplicação regular de fertilizantes orgânicos compostados, com carbono já humificado, permite elevar esses estoques de forma eficiente, contribuindo para melhoria da capacidade de retenção de água; redução da necessidade de irrigação; aumento da diversidade microbiana; sequestro de carbono atmosférico; e, redução da erosão e perda de solo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS E AÇÕES ESTRATÉGICAS
Os dados atualizados para 2025/2026 reforçam a tese central: a compostagem dos resíduos agrossilvopastoris deixou de ser apenas uma solução ambiental para se tornar uma estratégia central de segurança nacional.
Com uma produção de grãos de 354,8 milhões de ton, um rebanho bovino de 238,2 milhões de cabeças e um potencial produtivo de fertilizantes orgânicos de 1,18 bilhão de ton/ano, o Brasil possui matéria-prima mais que suficiente para:
- Reduzir sua dependência externa de fertilizantes, hoje superior a 85%;
- Gerar uma economia anual de US$ 46,28 bilhões em importações de NPK;
- Recuperar a qualidade dos solos agrícolas e de pastagens;
- Consolidar a economia circular no meio rural;
- Gerar empregos e renda em toda a cadeia produtiva de insumos orgânicos.
Para que esse potencial seja realizado, são necessárias ações coordenadas:
- Profissionalização e incentivo fiscal ao setor de insumos de base orgânica;
- Linhas de crédito acessíveis para aquisição de maquinário e instalação de novas unidades de compostagem;
- Políticas públicas que estimulem a adoção da adubação orgânica, incluindo compras governamentais e programas de recuperação de solos;
- Campanhas de difusão técnica sobre os benefícios dos compostos orgânicos para a saúde do solo e a produtividade das culturas;
- Incentivo à pesquisa para otimização de processos e desenvolvimento de produtos de maior valor agregado.
O momento é propício. O cenário internacional de preços elevados e vulnerabilidade geopolítica, aliado à crescente demanda global por alimentos produzidos de forma sustentável, coloca o Brasil em posição única para liderar a transição para uma agricultura de baixo carbono, baseada na reciclagem de nutrientes e na valorização de seus resíduos agrossilvopastoris.
Kátia Beltrame
Moacir Beltrame
2026 - Abisolo