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Plantio Direto em Hortaliças e SPDH
Já consagrado na produção de grãos, o sistema de plantio direto (SPD) é importante ferramenta para o estabelecimento de sistemas produtivos mais sustentáveis também em hortaliças, sendo necessária algumas adaptações, visto que as hortaliças não produzem palhada suficiente para o sistema.
No sistema de plantio convencional de hortaliças, o solo é preparado com o uso de arado, grade aradora, grade niveladora e, principalmente, enxada rotativa, com 4 a 8 passadas de máquina até o plantio ou semeio, acarretando na desestruturação física e na drástica redução da biota do solo, isto é, dos organismos do solo como minhocas e microorganismos decompositores da matéria orgânica, culminando com um ciclo de empobrecimento crescente.
Em contraposição, no plantio direto utiliza-se o conceito de “aração biológica”, ou seja, o preparo do solo é realizado a partir da decomposição do sistema radicular das plantas de cobertura. Preconiza-se a manutenção da cobertura e o revolvimento localizado do solo, objetivando sua proteção e estruturação, o que assume importância ainda maior quando se está trabalhando em regiões com declividade acentuada, sendo comum haver polos de produção de hortaliças em regiões serranas devido a questões climáticas (Madeira et al., 2019).
As primeiras experiências com o plantio direto (PD) no Brasil em hortaliças, de forma sistematizada, foram na região de Ituporanga-SC com cebola, ainda na década de 1980, chamado de cultivo mínimo com o transplantio de mudas sobre palhada (Tassinari, 1989). Também em cebola, na região de São José do Rio Pardo-SP, o plantio direto em cebola foi adotado a partir de 2002, pelo método de transplantio de mudas e pela semeadura mecânica diretamente no local definitivo. Em tomate rasteiro para processamento, o plantio de mudas sobre palhada em Goiás, maior produtor nacional, vem sendo empregado desde os anos 1990, ocupando atualmente cerca de 40% da área de produção, por vezes com um método popularmente chamado de “gradinha”, que consiste em passar uma grade niveladora semifechada para incorporação parcial e superficial dos restos culturais, sendo denominado Plantio com Preparo Reduzido (PPR). Em tomate envarado (para mesa) e brássicas (couve-flor, brócolis, repolho e outras), várias iniciativas tem se destacado em SC, RJ, MG, DF, ES, etc. Em cucurbitáceas (abóboras e melancia), experiências isoladas sobre palhada de milho, braquiária ou vegetação espontânea dessecada tem sido usadas em GO, MG, TO, RO, SC e outros estados.
Quando se tem uma adoção desse método de plantio por anos seguidos, entende-se como sendo não mais só o plantio direto enquanto um método mas sim como um sistema de plantio, que carrega também uma mudança de mentalidade, percebendo a importância da construção da fertilidade do solo no longo prazo.
Define-se o Sistema de Plantio Direto em Hortaliças (SPDH) como um manejo sustentável de solo e água que visa a otimizar a expressão do potencial produtivo das plantas, fundamentado por três princípios básicos: o revolvimento mínimo do solo, restrito aos sulcos ou às covas (ou berços) de plantio; a diversificação de espécies pela rotação de culturas, com ênfase no uso de plantas de cobertura para formação de palhada; e a permanente cobertura do solo, seja com resíduos vegetais (palhada), seja com plantas vivas (cobertura verde, roçada periodicamente) (Madeira et al., 2019; Fayad et al., 2019).
Dentre os benefícios do plantio direto e, mais intensamente, do SPDH, o incremento da matéria orgânica do solo e a redução da liberação de CO2 causada pelo revolvimento do solo, proporcionando sequestro de C para o sistema; a grande redução no consumo de derivados de petróleo, em torno de 50 a 75% pela redução no uso de maquinário, o que também contribui para evitar a liberação de C e a redução do “efeito estufa”; a redução nas perdas de solo em até 95% e água pluvial em 50% a 70% por efeito da cobertura do solo com palhada, minimizando os processos erosivos, especialmente quando da ocorrência de eventos climáticos extremos como enxurradas e deslizamentos; a redução na evaporação e no escorrimento superficial pela cobertura da superfície do solo com palhada, com consequente diminuição no consumo de água em culturas irrigadas entre 10% e 30%, fator importante especialmente quando da ocorrência de estiagens; a maior ação biológica de minhocas e outros organismos benéficos; a redução da ocorrência de plantas infestantes; a melhoria das características físicas, químicas e biológicas do solo; a redução no controle fitossanitário em cerca de 50% ou até mais pela melhor condição de solo e microclima (“conforto térmico e hídrico”) e maior sanidade das plantas pela redução da dispersão de doenças pela menor incidência de respingos de solo, maior infiltração de água e menor encharcamento; e finalmente a redução dos riscos e dos custos de produção.
A Embrapa Hortaliças, localizada em Brasília, Distrito Federal, desde 2002 tem conduzido experimentos para sistematizar o plantio direto em cebola, tomate rasteiro e tomate envarado, brássicas (brócolos, couve-flor e repolho), mandioquinha-salsa (batata-baroa), abóboras e morangas, com avaliação de diferentes cultivares e plantas de cobertura, níveis de adubação, manejo da irrigação, entre outros fatores. Após um projeto inicial adaptativo, iniciou-se também a validação em parceria com o setor produtivo com a implantação de unidades demonstrativas de SPDH em cebola, tomate e brássicas em GO, DF, MG, RJ e ES.
Como ponto chave para o sucesso do SPDH, é fundamental a escolha adequada das plantas de cobertura fornecedoras de palhada. Deve-se utilizar plantas com grande produção de biomassa aérea e de raízes. As plantas de cobertura (milheto, sorgo forrageiro, milho, braquiária ruzisiensis, aveia, trigo, centeio, arroz, crotalária, mucuna, ervilhaca, ervilha forrageira, nabo forrageiro, entre outras) reciclam nutrientes, em função do seu profundo e vigoroso sistema radicular, buscando nutrientes de camadas mais profundas. Tão importante quanto o efeito de cobertura do solo pela palhada, fácil de ser percebida, é o efeito promovido pela decomposição das raízes, o que acarreta na abertura de galerias e poros, e libera húmus, proporcionando a estruturação do perfil do solo. Para se obter uma palhada mais duradoura, predomina no PD e SPDH o uso de gramíneas como milheto, aveia, milho, plantas mais fibrosas em função da maior relação C:N (carbono:nitrogênio) em sua constituição. Ao consorciar gramíneas e leguminosas, a exemplo de aveia+ervilhaca, milho+mucuna ou milheto+crotalária, tem-se uma palhada duradoura pelas gramíneas e fixação de nitrogênio pelas leguminosas. A palhada pode ser manejada por corte, rolagem, trituração ou dessecação, havendo equipamentos de alto rendimento, assim como é possível em parcelas menores o manejo manual, com roçadeiras.
O estabelecimento da cultura em si consiste basicamente do semeio ou do transplantio de mudas nos sulcos ou covas (berços) de plantio, a depender da espécie, revolvendo-se o mínimo o solo e a palhada sobre este. O sulcamento é normalmente efetuado mecanicamente, simultâneo à adubação de plantio. Em pequenas áreas, é viável o coveamento manual, comum em áreas declivosas.
Quando se adota o PD, deve-se ajustar a adubação nitrogenada no plantio e em cobertura na fase inicial, a depender da(s) planta(s) de cobertura utilizada(s). Usando somente gramíneas como milho, por exemplo, deve-se elevar a adubação nitrogenada até 20 a 30% da dosagem convencional; quando se utilizam leguminosas, pode-se reduzir a adubação nitrogenada no plantio e na primeira adubação de cobertura em até 50%, devendo-se fazer um balanço da biomassa aportada ao sistema, sempre considerando os sinais (sintomas) das plantas.
A adubação de base, principalmente a fosfatada, por ficar mais concentrada nas linhas, pode ser reduzida, devido à menor perda de P quando comparada à adubação incorporada nos canteiros. Também se pode utilizar termofosfatos previamente ao plantio das plantas de cobertura. No Brasil Central, a Embrapa Hortaliças e empresas parceiras desenvolveram o PD em tomate rasteiro para processamento, obtendo elevados níveis de produtividade, em torno de 100 t/ha, com redução na adubação de base em 20% e economia entre 10 e 15% na irrigação pela maior eficiência no uso de água.
Em uma lavoura de tomate comercial cultivada em PD sobre palhada de milheto rolada e dessecada em Brazlândia, Distrito Federal, utilizando-se tutoramento vertical e condução em duas hastes, observou-se aumento dos níveis de produtividade e redução dos custos. Foram colhidas 482 caixas/1000 pés (equivalente a 141 t/ha), 315 Extra 3A e 167 Extra 2ª, além de redução de 40 a 50% na aplicação de agroquímicos, decorrentes da manutenção do “mato” roçado entre as linhas, ressignificando o conceito de plantas infestantes, e sanidade geral do sistema de produção com consequente redução drástica em pragas e doenças quando comparado ao cultivo com preparo de solo convencional praticado antes pelo produtor e por produtores vizinhos na mesma época.
Em brócolis cabeça única, Melo (2007) avaliou o efeito da palhada na temperatura do solo e na produtividade, observando-se até 4 graus a menos em média na superfície do solo, o que é interessante para hortaliças de clima ameno como couve-flor e brócolis, e aumento de até 12% na produtividade. Ainda em brócolis cabeça única, o SPDH tem sido a estratégia que tem viabilizado seu cultivo ao longo do ano e não só no inverno em produtor orgânico em Padre Bernardo-GO.
E sim, existem modelos de PD ou SPDH em sistema orgânico de produção, com a devida atenção quanto à escolha das espécies e ponto de manejo das plantas de cobertura. Também tem sido realizado PD em casas de vegetação, visando reduzir doenças e proporcionar melhor ambiência para as plantas.
O SPDH surge, portanto, como uma ferramenta fundamental para o enfrentamento dos efeitos das mudanças climáticas, como aquecimento global e eventos extremos como chuvas torrenciais e estiagens prolongadas. Essa atenuação dos extremos de temperatura também ocorre para temperaturas baixas, por ocasião de fortes frentes frias e geadas, graças ao efeito isolante que a palhada proporciona, fator importante na região Sul e em regiões frias do Sudeste.
De forma geral, tem se verificado redução dos custos de produção com elevação ou no mínimo manutenção da produtividade e qualidade do produto comercial, o que vem sendo atribuído ao maior “conforto” térmico e hídrico das plantas em função da conservação da umidade e atenuação da variação de temperatura do solo. Além dos benefícios diretos, observa-se redução de custos indiretos. A sociedade como um todo se beneficia com a adoção do PD ou SPDH pela redução dos efeitos causados pelos processos erosivos como o assoreamento dos cursos d’água, a contaminação dos mananciais e a deterioração de estradas vicinais. É indispensável promover sistemas de produção de hortaliças que conciliem sustentabilidade ambiental com viabilidade econômica.
Nuno Rodrigo Madeira
2024 - Abisolo