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Inventário e Tendências no Brasil e no Mundo para produtos Orgânicos. O que esperar do setor de orgânicos para os próximos anos
Tendência. A palavra, segundo o dicionário, significa ‘predisposição, propensão, disposição natural’ a algo. E estas são importantes para entender e compreender diversos temas. E o setor agrícola não poderia ser diferente.
O mercado de orgânicos, por exemplo, cresce gradativamente a cada ano – mesmo sofrendo com os impactos da crise econômica recente (com aumento do desemprego e fechamento de indústrias). No Brasil, as fazendas orgânicas e o mercado vêm se atualizando e buscando desenvolver seus produtos.
Dados do Research Institute of Organic Agriculture mostram que as terras agrícolas utilizadas para a produção de orgânicos atingiu 50,9 milhões de hectares no mundo, em 2015. Há 16 anos, eram apenas 11 milhões.
O destaque fica por conta da Austrália, que investe 22,7 milhões de hectares para esse fim. Os reflexos, inclusive, podem ser vistos na qualidade de vida de seus moradores. Frequentemente, o país é considerado o mais feliz do mundo em pesquisas da área.
Enquanto isso, o Brasil ainda engatinha na regulação da importação e exportação dos orgânicos. Mesmo que os importados tenham que obedecer às normas Brasileiras para Orgânicos, a Lei 10.831, ainda não temos um acordo regulatório equivalente para trocas e reconhecimentos mútuos internacionais.
Mesmo assim, o mercado vem aquecido. A Jasmine foi comprada pela francesa Nutrition et Santé, a Mãe Terra pela Unilever e a Monama e a Empório da Papinha se fundiram. Além disso, a Hortifruti e a Frutos da Terra se uniram e investiram R$80 milhões para a criação de 12 lojas onde parte dos produtos é de origem orgânica.
Para desenvolver ainda mais o setor, o Brasil lançou o Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Planapo). Nele, estão previstos a diminuição da taxa de juros, assessoria técnica, financiamento para o desenvolvimento e a promoção da socio biodiversidade. Parte do Planapo, o Programa Ecoforte, que visa o fortalecimento e a ampliação das redes, cooperativas e organizações socio-produtivas e econômicas de agroecologia, extrativismo e produção orgânica, já estão em andamento, por exemplo.
Como consequência, o interesse de escolas e creches na obtenção de alimentos orgânicos também sobe. Diversas cidades já começaram a mudar o cardápio local. Não à toa, ¼ dos municípios brasileiros já contam com produção orgânica.
Ações como esta fortalecem ainda mais os mercados e shoppings que vendem orgânicos – comprovados pelo aumento de seu valor em pelo menos 35%, segundo informações do Organis.
No mercado internacional e nos EUA, multinacionais como a Pepsico, McDonald’se Nestlé não ficaram para trás. Seguram a tendência e começaram a criar linhas de alimentos sustentáveis e algumas destas com orgânicos. Praticamente todas as multinacionais do mundo agro já investem em orgânicos: além das mencionadas acima: Campbells, Cargill, Com Agra, Danone, General Mills, M&M Mars, Mondelez, White Wave, Thyson, entre outros. Segundo a Organic Trade Association nos EUA o mercado de orgânicos alcançou de 2015 a 16 a cifra de U$ 40 Bilhões em vendas. No Brasil estima-se um total de R$ 4 Bilhões.
No Brasil, tivemos também o anúncio recente da compra da AgraQuest pela gigante Bayer, da ItaForte Bioprodutos pela Koppert e da parceria entre a Agrinos e a Syngenta. A aquisição de empresas com tecnologias verdes por grandes internacionais gera uma maior capilaridade na distribuição destes insumos.
Atualmente, muito se fala em sustentabilidade. E este é um dos caminhos a serem seguidos pela produção agrícola. O aumento da procura por grandes fabricantes em aderir ao Programa de Insumos do IBD, o surgimento de novas tecnologias de bases biológicas, o aumento na restrição do uso de defensivos e a tendência de proibição do uso de defensivos na agricultura são alguns dos fatores que traçam um panorama da área.
Outra prova do crescimento do setor é o aumento de cerca de 50% dos clientes IBD Certificações do Programa de Aprovação de Insumos entre 2015 e 2018, representando mais de 100 % de aumento no faturamento para o período. Em adição, da procura cada vez maior para uso de insumos certificados IBD pelos produtores convencionais, sendo um indicativo importante do aumento da preocupação pelos produtores em geral por tecnologias mais sustentáveis e seguras.
Apenas para entender melhor como funciona a certificação, pontuo algumas etapas desenvolvidas no processo de auditoria na unidade produção e/ou armazenamento: verificação do processo produtivo do insumo; atendimento às legislações pertinentes devendo possuir registro no MAPA, ANVISA, IBAMA, CETESB, e outros; controle de qualidade existente para aquisição de matérias-primas e produção dos insumos de interesse; programa de saúde e segurança do trabalho existente; controle de rastreabilidade e segregação de produção; programa de descarte de embalagem e produto e quando se aplica é feita coleta de amostra para análise laboratorial.
Então, o que podemos esperar?
O Brasil possui um enorme potencial de consumo, afetado por crises externas e internas. Mas se você tem força de vontade, planejamento, organização (e um pouco de sorte) você tem grandes chances de prosperar no ramo de orgânicos.
Tem de pensar também na qualidade, na concepção de orgânicos indo para outras áreas – como os cosméticos, têxtil, turismo etc. –, e-commerce, acessibilidade, Fair Trade, entre outros fatores.
Comparativamente, existem nos EUA mais de 5.000 insumos certificados para uso na produção agrícola com foco na produção orgânica enquanto no Brasil não passamos de 300 insumos com certificação para atendimento a esse mercado. Este dado evidencia claramente o potencial de crescimento do mercado brasileiro para atendimento aos produtores com novos insumos que também sejam permitidos para uso na produção orgânica.
Do ponto de vista da tecnologia, a consolidação de grandes projetos orgânicos no Brasil e no mundo nos últimos 20 anos, novos conceitos carregados em produtos como resistência, controle biológico atuando em praticamente todas as áreas de defesa sanitária, novas formulações e produtos de adubos, integração agricultura e pecuária, agrossilvicultura em várias tendências demonstram que o orgânico é viável. Mostra também o enorme impulso que a agricultura como um todo está conduzindo no caminho da sustentabilidade.
O importante é ter em mente de que o orgânico não é uma tendência ou uma moda. É algo que veio para ficar, mais que nicho, hoje é um setor em expansão do ponto de vista global. Pense nisso.
Alvaro Garcia
Alexandre Harkaly
2019 - Abisolo