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Índice de colheita do café arábica durante a frutificação
Introdução
O cafeeiro (Coffea arabica L.) é originário de sub-bosque, mas cultivado a pleno sol no Brasil. A florada ocorre nas partes dos ramos plagiotrópicos que cresceram no ano anterior. A carga de frutos influencia o crescimento vegetativo, representado pelas partes novas do caule e dos ramos.
O crescimento dos frutos e da vegetação nova ocorrem ao mesmo tempo e concorrem pelos fotoassimilados e nutrientes. Em decorrência, é inevitável a variação entre as colheitas, a qual pode ser atenuada pelo auto sombreamento provocado pelo aumento da população de plantas.
A partição de fitomassa entre frutos e vegetação pode ser conhecida através do índice de colheita. Trata-se de um índice útil para o melhoramento genético e ao manejo da lavoura. Sobre o manejo, a evolução do índice de colheita pode orientar a época da adubação do cafeeiro.
Na fitomassa seca da planta há, em média, cerca de 45% de carbono (C), 44% de oxigênio (O) e 6% de hidrogênio (H), enquanto o restante (5%) são os nutrientes. Ambos, C e O são assimilados do CO2 pela fotossíntese e o H é fornecido pela água.
Índice de colheita
O índice de colheita foi proposto originalmente por Beaven (1920); utilizado posteriormente por Donald (1962) no melhoramento de trigo. Esse índice expressa a parte da massa total acima do solo, alocada no produto colhido (equação 1). Até onde se sabe, esse conceito ainda não foi descrito na cultura do cafeeiro.
IC = MFR / MT = MFR / MFR + MVE (1)
em que, IC corresponde ao índice de colheita; MFR é a massa seca dos frutos; MT é a massa seca total acima do solo, obtida pelo somatório da MFR e da massa seca da vegetação (MVE). O IC em % obtém-se pela multiplicação do quociente (1) por 100.
Variação do IC durante um ciclo reprodutivo
No cafeeiro, o IC durante a frutificação demonstra como a planta particiona os fotoassimilados entre os drenos. Possibilita, ainda, conhecer a competição entre a carga de frutos atual e o crescimento vegetativo novo (carga futura). Para esse fim, não interessa a massa de órgãos formados em anos anteriores, somente do ciclo atual (Figura 1, frutos e área hachurada).

Figura 1. Órgãos novos (frutos e área hachurada) para determinação do IC de plantas com carga baixa (a) e carga alta (b). FR, corresponde à alta carga de frutos e fr a baixa carga; VE significa um grande crescimento vegetativo novo e ve uma pequena vegetação nova
Nesse sentido, é interessante a variação do IC ao longo da frutificação. Aos 38 dias da florada principal, a planta alocou 7% (IC 0,07) da fitomassa nos frutos (carga baixa) e 13% (IC 0,13) na carga alta (Figura 2). Aos 78 dias, não variou o IC na carga baixa (5%), mas triplicou o acumulo de fitomassa (38%) na carga alta. Aos 139 dias, tanto na carga baixa quanto na carga alta não variou a fitomassa, em que o acumulo foi de 9% e 33%, nessa ordem (Figura 2).
Nos primeiros 78 dias da frutificação, predominam frutos chumbinhos na planta. Nessa época, o cafeeiro direcionou 62% dos fotoassimilados para o crescimento novo (carga alta) e 95% na carga baixa (Figura 2). Durante o período, especula-se que a planta também direcionou fotoassimilados para a formação de raízes novas.
Por fim, aos 273 dias após o florescimento (colheita), o valor máximo de IC foi 75% (carga alta e 44% (carga baixa). Por sua vez, foram alocados 25% e 56% de fitomassa no crescimento vegetativo da carga futura (Figura 2).
A evolução do IC evidenciou a dominância do crescimento vegetativo sobre os frutos nos primeiros 139 dias, independentemente da carga. Diante do apresentado, e diferente do que é feito tradicionalmente, a adubação deve ser realizada mais cedo para atender a vegetação, quando os frutos chumbinhos não são exigentes (Silvério, 2025). Antecipar a adubação, especialmente a de nitrogênio (N), pode aumentar o número de nós vegetativos, onde será formada a próxima carga de frutos. Pode-se hipotetizar que esse procedimento atenuaria a bienalidade da produção de café.
Figura 2. Variação do IC durante a primeira colheita de plantas com carga alta e baixa.
Fonte: dados não publicados de Sebim e Favarin (2026)
A adubação antecipada apresenta duas vantagens: operacional e agronômica. Fornecendo os nutrientes mais cedo, a absorção começará à medida que aumentar a umidade do solo, com as primeiras chuvas. Nesse caso, não aplicar N-amídico pelo risco de volatilização no caso de a chuva atrasar ou ser insuficiente para incorporá-lo. No primeiro parcelamento, recomenda-se utilizar fontes de N nítrica ou amoniacal.
Cafeeiros adultos submetidos à diferentes cargas, pelo desbaste no início da frutificação, apresentaram um comportamento interessante em relação à partição de fotoassimilados na colheita (Figura 3). O IC estabilizou em 0,8 (80%) nas plantas com carga alta, superior a 7 L de café da roça (verde, maduro e seco). Apesar de os frutos serem drenos prioritários, observa-se um limite biológico à alocação reprodutiva. Ao que parece, há dependência de uma estrutura vegetativa mínima (20% de fitomassa) para sustentar a fotossíntese necessária ao crescimento dos frutos atuais, bem como para garantir alguma carga futura (vegetação nova). Em outras palavras, carga acima de um limite não resulta em ganhos da fitomassa reprodutiva (IC), a fim de a planta manter um mínimo de crescimento vegetativo anual (carga futura).

Figura 3. Índice de colheita de cafeeiros adultos em razão das cargas de frutos deixadas nas plantas
Fonte: Favarin e Souza, 2026[1]
Considerações
A carga de frutos é um forte regulador do crescimento vegetativo e do índice de colheita. O IC do cafeeiro, não quantificado anteriormente, varia com a carga e, obviamente, durante o desenvolvimento dos frutos.
Aparentemente, existe um limite fisiológico à alocação de fitomassa aos frutos, de modo a proporcionar uma vegetação mínima para o crescimento dos frutos atuais e para produzir alguma carga no ciclo seguinte.
Conhecer o IC melhora a compreensão da regulação fonte-dreno do cafeeiro, da partição de fotoassimilados (fitomassa seca) em função da reprodução, bem como fornece informações valiosas para o manejo da adubação do cafeeiro arábica.
José Laércio Favarin
João Paulo Marin Sebim
2026 - Abisolo