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A difusão e transferência de tecnologias como ferramentas para o Plano Nacional de Fertilizantes
O ano de 2020 foi um ano complexo com o advento da pandemia da COVID -19, o mercado brasileiro de fertilizantes seguiu as tendências do agronegócio, com aumento do consumo. Segundo dados levantados por empresas do setor, o crescimento médio do setor no Brasil fica entre 2% e 3% ao ano. A expectativa do mercado é que esse cenário continue em 2021, e que as vendas passem a ultrapassar a marca de 40 milhões de toneladas pela primeira vez na história.
Já o ano de 2021 iniciou-se com uma das melhores notícias para a governança do setor de fertilizantes do Brasil na última década. O Governo Federal, por meio da coordenação da Secretaria Especial de Assuntos Estratégicos (SAE), criou um grupo de trabalho interministerial com o objetivo de desenvolver um Plano Nacional de Fertilizantes (PNF). A proposta pretende aumentar a produção e consequente oferta de fertilizantes nacionais (adubos, corretivos, condicionadores), além de reduzir a dependência dos produtos importados e ampliar a competitividade do agro no mercado internacional. O objetivo é propor um conjunto de medidas que contribua para que o Brasil aumente a produção de fertilizantes e reduza a dependência externa de produtos e tecnologias.
O principal desafio é reduzir a dependência externa do País e promover a produção e o desenvolvimento de tecnologia de fertilizantes. O Brasil importa em torno de 80% dos fertilizantes que consome. Além disso, quase toda a tecnologia disponível no País para produção e aumento de eficiência dos fertilizantes no campo não é brasileira. O significativo aumento da produção nacional de fertilizantes, com a implantação do PNF, se dará em médio e longo prazo, pois esse setor requer altos investimentos, dependem de modernização e especialização da legislação e programas de financiamento que melhorem o ambiente de negócios, desde a pesquisa mineral, lavra até a industrialização e distribuição dos fertilizantes.
No entanto, é fundamental que se busquem ações que possam resultar em impactos em curto prazo, sobretudo aquelas que impactam diretamente nos custos de produção no campo, ou seja aos produtores, bem como minimizem o impacto ambiental negativo do uso dos fertilizantes. É nesse sentido que a inovação pode ajudar o Brasil. A Inovação acontece quando o conhecimento, tecnologias e serviços chegam ao mercado e causam impacto positivo na cadeia produtiva.
No Brasil, atualmente, a eficiência dos fertilizantes no campo precisa aumentar. Essa eficiência pode ser aumentada justamente difundindo o conhecimento sobre as Boas Práticas para uso eficiente de fertilizantes (PBUF) e ampliando a produção de fertilizantes de base orgânica (organominerais). Cerca de 40% do N, 50% do P e 30% do K proveniente dos fertilizantes utilizados pelo agricultor são perdidos de alguma forma nas lavouras. Este fato, onera muitíssimo os custos de produção que, no caso de soja, milho e algodão, podem superar os 40%.
Nos últimos 40 anos, por meio de um grande investimento público, o Brasil dominou o conhecimento necessário para o uso e a conservação dos solos para a produção agrícola em regiões de solos bastante impróprios para a agricultura, como a região do cerrado. O sucesso da agricultura em regiões como essa se dá por causa das práticas de correção da acidez e da fertilidade do solo, da manutenção da fertilidade química e, recentemente, física e biológica/bioquímica. Do mesmo modo, fertilizantes organominerais, cuja carga orgânica pode permitir que a interação dos nutrientes liberados no solo seja mais favorável à nutrição das plantas e não das perdas, são desenvolvidos e oferecidos no mercado brasileiro com crescimento maior que 10% ao ano, nos últimos 5 anos.
Então, porque a eficiência agronômica, em média, é ainda tão baixa no Brasil? Por que temos fazendas em que os extremos ocorrem, ou seja, sistemas de produção com altíssima eficiência e outros com baixíssima? É uma questão de transferência e difusão de tecnologia. No passado recente, houve um certo “jogo de empurra” ou uma sobreposição de papéis na difusão do conhecimento e tecnologias para o produtor rural. A universidade e as empresas de pesquisa que são especialistas em produzir ciência e tecnologia se aventurando a fazer o trabalho da extensão rural, e a extensão rural sem o devido conhecimento atualizado e as ferramentas adequadas para fazê-lo. Além disso, ainda há uma verdadeira situação de elitização da transferência de tecnologia para o produtor que pode pagar a consultoria especializada ou pode ter acesso à informação.
Onde está a solução? Está na elaboração de uma estratégia nacional que tenha metas claras para aumentar a eficiência dos fertilizantes no campo, e é isso que o Plano Nacional de Fertilizantes pretende fazer em curto prazo. O PNF deverá contar com metas simples e factíveis em curto prazo, como a qualificação de pessoal em todos os níveis, bem como a adoção de tecnologias e técnicas modernas de difusão da informação. Uma modernização da transferência de tecnologias no setor de fertilizantes.
Na última década, o Brasil experimentou experiências exitosas em Inovação no setor de fertilizantes, a iniciativa pública e privada, que, por motivos da não existência de uma governança exercida por um plano nacional para o setor, tiveram suas atividades descontinuadas ou diminuídas.
Uma delas foi a Rede FertBrasil¹, criada em 2009 no âmbito do Ministério da Agricultura, por meio da Embrapa, fez o seu planejamento estratégico com a participação de mais de 300 especialistas, de dezenas de instituições públicas e as principais empresas e representações setoriais do país. Ela foi um marco que contribuiu para que haja alguma inovação nacional no setor hoje, sobretudo em boas práticas para o uso eficiente de fertilizantes nos solos tropicais.
Outra iniciativa de destaque foi o programa de Boas Práticas para o Uso Eficiente de Fertilizantes, liderado pelo International Plant Nutrition Institute (IPNI), que contou com a colaboração de diversas instituições públicas de C&T, bem como de extensão rural. Esse programa teve o Brasil como um dos principais países foco de suas ações.
Ambas as iniciativas atingiram a cadeia produtiva com inovação, pela pesquisa, desenvolvimento e difusão e transferência das tecnologias. No entanto, o país precisa mesmo é de um plano nacional para o setor, para evitar as descontinuidades, pois segundo levantamento feito pelo Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI) em parceria com a Embrapa, não figura entre os países mais relevantes em inovação no setor de fertilizantes no mundo, o que é um contrassenso para o setor agropecuário brasileiro, que tem toda a produção agropecuária realizada em forte base científica desenvolvida para as condições tropicais de produção, predominantes no país.
Uma novidade recente que pode virar o jogo das boas práticas de utilização de fertilizantes e corretivos no campo do Brasil, é a gamificação. A gamificação é o uso de jogos eletrônicos para a difusão de conhecimento e tecnologias em várias áreas de forma interativa. Recentemente, a Embrapa Solos e parceiros, lançou o projeto “soils play – O Agro entrou no jogo”. Esse projeto visa o desenvolvimento de jogos eletrônicos, por empreendedores inovadores, startups, em parceria com a Embrapa e instituições públicas e privadas que compõem o projeto. Essa ferramenta pode também ser usada como instrumento de educação e treinamento, comunicação com aspectos técnicos e ao mesmo tempo lúdicos, tudo isso contribuindo para derrubar mitos sobre o uso de fertilizantes que ainda imperam sobre o público mais urbano, demonstrando ao consumidor o quanto isso está relacionado a práticas agropecuárias sustentáveis.
Com a criação do Plano Nacional de Fertilizantes, a Rede FertBrasil[1] será retomada e ampliada e já contará com as novas estratégias para que as ações de comunicação e transferência de tecnologia mais modernas e que tornarão as tradicionais mais efetivas, para que além de dinamizar tendências e cenários com simulações específicas para culturas e sistemas integrados, já inserindo o componente da agricultura de precisão, inteligência artificial, data mining.
Um outro ponto importante é a inserção de ações de sustentabilidade ambiental na cadeia do fertilizante e do agronegócio. Nas ações de transferência de tecnologia precisamos também abordar o quanto esse setor está relacionado às práticas Environmental, Social, Governance (ESG). O setor de Fertilizantes precisa estar atento o quanto às práticas ESG, pois significa a incorporação efetiva de práticas de sustentabilidade ambiental, inclusão social e governança no setor agropecuário e sua consequente transformação em um ativo tangível do ponto de vista financeiro, com vinculação a fundos de investimento na casa de trilhões de dólares. As “marcas” que estiverem associadas a divulgação de boas práticas, serão cada vez mais valorizadas.
O mercado de crédito de carbono passa também a ser um novo ativo para o setor e para isso ações de comunicação e transferência de tecnologia deverão ser organizadas para atingir não só a melhoria da gestão da propriedade e uso de fertilizantes, mas também em desmistificar o setor para o público consumidor, seja ele do campo ou das áreas urbanas.
Temos uma janela de oportunidades no Brasil para que os benefícios sociais e ambientais da sustentabilidade se tornem um negócio rentável para o setor de fertilizantes e o produtor rural, por meio do estímulo as cadeias chamadas “emergentes” cujas tecnologias são essencialmente brasileiras. Dentre elas, a produção de fertilizantes organominerais deve ser vista como a mais promissora, uma vez que já conta com mais de 300 empresas de pequeno e médio portes atuando no Brasil, por se apropriar de tecnologias desenvolvidas no Brasil, utilizando como matéria prima principal resíduos sólidos, coprodutos e novas fontes de nutrientes nacionais, que insere o setor de fertilizantes na economia circular, base para a sustentabilidade.
O PNF torna-se então grande janela de oportunidade para que o setor de fertilizantes, pela sua forte influência, e em função da importância não só de realizar as adubações de acordo com a expectativa de produtividade das culturas, mas, principalmente, atendendo às necessidades dessas em relação a todos os nutrientes, com ganhos de produtividade e com práticas cada vez mais sustentáveis mostrar ao mundo a potência de uma Brasil AgroAmbiental.
Com dados e informações orientando a elaboração de cenários cada vez mais dinâmicos, o Brasil poderá ter indicadores agroambientais cada vez mais adequados para responder a necessidade de mostrar à sociedade como o país é realmente essa potência AgroAmbiental, conforme preconizado pelo Ministério da Agricultura atualmente.
Portanto, transferência e difusão de conhecimento e tecnologias sobre as boas práticas de uso eficiente de fertilizantes e corretivos, a aplicação das tecnologias digitais, como os “games”, a ampliação da oferta de fertilizantes que tenham comprovação científica de maior eficiência agronômica no campo, da ampliação da produção de fertilizantes organominerais, bem como uso de novas fontes de nutrientes minerais nacionais, poderão ser as primeiras ações do PNF que causarão impactos positivos para a cadeia de fertilizantes nas atividades “dentro e fora da porteira”, em curto prazo, onde o produtor rural será o principal beneficiado.
Petula Ponciano Nascimento
José Carlos Polidoro
2021 - Abisolo