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Remineralizadores de solo como estratégia para ativação biológica e sustentabilidade dos sistemas produtivos tropicais

A intensificação de sistemas agrícolas sustentáveis tem impulsionado a adoção de tecnologias voltadas à melhoria da qualidade do solo e à eficiência no uso de nutrientes. Nesse contexto, os remineralizadores de solo, regulamentados no Brasil desde 2016, consolidam-se como alternativa tecnicamente fundamentada para o manejo da fertilidade em solos tropicais.

Baseados em processos naturais de intemperismo mineral, esses insumos atuam de forma integrada sobre atributos químicos, físicos e biológicos do solo, promovendo a liberação gradual de macro e micronutrientes, a correção progressiva da acidez e o aumento da eficiência de uso do fósforo. Sob a perspectiva geoquímica, favorecem a formação de minerais secundários com maior capacidade de troca de cátions, ampliando a retenção de nutrientes e a estabilidade da fertilidade ao longo do tempo.

Além dos efeitos químicos, os remineralizadores estimulam a atividade microbiana do solo, intensificando processos de intemperismo biogeoquímico e a ciclagem natural de nutrientes, especialmente em solos altamente intemperizados. Quando integrados a práticas conservacionistas, como plantio direto e rotação de culturas, seus efeitos são potencializados.

Apesar dos avanços, persistem lacunas relacionadas à dinâmica de liberação de nutrientes em longo prazo e às interações entre mineralogia e microbioma do solo, indicando a necessidade de estudos regionais e de longa duração para consolidar recomendações técnicas.

 

Fundamentação conceitual e regulamentação brasileira

No Brasil, os remineralizadores de solo são definidos como agrominerais silicáticos que, além de fornecerem elementos nutritivos essenciais às plantas, contribuem para a formação de novos minerais com elevada área superficial e capacidade de troca catiônica no solo, favorecendo a interação entre as raízes e os microrganismos edáficos (Reis et al., 2024).

A produção e o uso de remineralizadores de solo no Brasil são respaldados por arcabouço legal específico, estabelecido pela Lei nº 12.890/2013 e regulamentado pela Instrução Normativa nº 5/2016 do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) (Brasil, 2013 e 2016). Essa estrutura normativa assegura padrões mínimos de qualidade e respaldo técnico para o uso responsável desses insumos nos sistemas produtivos.

 

Bases geoquímicas e mineralógicas dos remineralizadores

Os remineralizadores são obtidos de materiais de origem mineral expostos a processos mecânicos para redução e classificação de tamanho das partículas, sem qualquer outro processo químico (rochas moídas, pó de rocha) a partir da moagem fina de rochas silicáticas (Theodoro et al., 2021), e contêm uma gama diversificada de elementos essenciais para as plantas.

Nesse contexto, a natureza geológica das matérias-primas utilizadas como remineralizadores é determinante para sua eficiência agronômica, uma vez que condiciona a composição mineralógica e a cinética de liberação dos nutrientes. A Figura 1 reúne as principais matérias-primas reconhecidas pelo MAPA como remineralizadores (Brasil, 2025), sendo observado que a maior parte desses produtos é constituída por rochas silicáticas.

Figura 1. Principais matérias-primas registradas como remineralizadores de solo junto ao Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA)

Fonte: Almeida e Amaral (2026).

 

Observa-se, a partir da Figura 1, a predominância de rochas silicáticas entre os remineralizadores registrados, o que reforça seu potencial como fontes multinutrientes de liberação gradual, especialmente em sistemas agrícolas conduzidos sobre solos altamente intemperizados.

A liberação progressiva de K⁺ e micronutrientes pode reduzir a dependência de fontes solúveis de potássio, especialmente em solos tropicais com baixa reserva mineral (Martins et al., 2023). Esses efeitos são potencializados quando os remineralizadores são integrados a práticas conservacionistas, como plantio direto e rotação de culturas, que favorecem a manutenção da cobertura do solo e o incremento da matéria orgânica.

A Tabela 1 sintetiza as principais classes de rochas utilizadas como remineralizadores, destacando sua composição química e as contribuições agronômicas associadas ao uso agrícola.

 

Tabela 1. Minerais formadores de rocha, composição e seu potencial uso agrícola

Rochas/material geológico Composição Contribuições agrícolas
Basalto SiO₂, CaO, MgO, Fe₂O₃, K₂O, Na₂O. Teores relevantes de Zn, Cu e Mn. Aporte multinutrientes e estímulo à atividade biológica, resistência das plantas a estresses bióticos e abióticos (associada, entre outros fatores, ao aporte de silício)
Sienito Feldspatos potássico K₂O Suprimento de potássio.

 

Granitos (quartzo, feldspatos e micas) K₂O, CaO, MgO e micronutrientes. Liberação lenta em comparação ao basalto. Reposição gradual de elementos essenciais.
Monzonitos Composição intermediária entre rochas ricas em feldspatos alcalinos e plagioclásios.  K₂O, CaO e MgO em proporções equilibradas Multinutrientes de liberação progressiva.
Rochas locais (dependendo da geologia regional) Fonolitos, diabásios, tufos vulcânicos e filitos.

K₂O, CaO, MgO e  P2O5

Macro e micronutrientes, desde que atendam aos critérios técnicos e legais vigentes.
Resíduos minerais da atividade de mineração

(britagem, rejeitos de pedreiras e escórias silicatadas)

K₂O, CaO e MgO além de micronutrientes. Contribui para a economia circular, redução de passivos ambientais e promoção de práticas alinhadas à agricultura sustentável.

Fonte: Autores.

Do ponto de vista geoquímico, esse processo assemelha-se à restauração do ciclo de nutrientes original, repondo aqueles minerais que foram removidos ou tornaram-se menos disponíveis ao longo de décadas de exploração agrícola intensiva. A liberação gradual desses elementos reduz o risco de perdas por lixiviação, característica dos fertilizantes solúveis de liberação rápida (Swoboda et al., 2023).

 

Ativação biológica do solo e integração com processos naturais

No contexto do manejo do solo, os produtos utilizados para sua manutenção incluem remineralizadores, calcário e fosfatos naturais, bem como bioestimulantes, inoculantes e biofertilizantes, além dos processos associados ao uso desses insumos (Almeida e Amaral, 2026).

Além da contribuição química, a aplicação de remineralizadores está associada à ativação biológica do solo. Essa ativação decorre da interação entre os minerais adicionados e a biota edáfica — fungos, bactérias solubilizadoras de minerais e outros microrganismos — que aceleram o intemperismo biogeoquímico e aumentam a disponibilidade de nutrientes (Ferreira et al., 2023).

A ativação biológica promovida pelos remineralizadores está fortemente associada à ação de microrganismos solubilizadores, capazes de acelerar o intemperismo biogeoquímico e ampliar a disponibilidade de nutrientes, conforme apresentado na Tabela 2.

 

Tabela 2. Microrganismos com ação solubilizadora para diferentes nutrientes minerais utilizados na nutrição de plantas

Microrganismo Gênero espécie Solubilização
Bactérias Azospirillum brasiliense e A. formosense N,  PO4, Zn,  Fe
Bacillus amyloliquefaciens e B. subtilis PO4; K, Zn, Fe
Bacillus aryabhatai PO4; K Zn
Bacillus circulans e B. edaphicus K
Bacillus licheniformis PO4; K; Fe
Bacillus megaterium PO4; K, Zn, Fe, Mn
Bacillus pumilus Zn
Pseudomonas oryzihabitans e P. fluorescens N, PO4
Rhizobium leguminosarum N, PO4
Rhizobium tropici N, PO4, Zn
Fungo Trichoderma asperellum, T. harzianum e T. koningiopsis PO4; K, Zn, Cu, Mn, Fe

Fonte: Adaptado de Ferreira et al., 2022.

 

Esses processos biológicos são especialmente relevantes em solos de baixa fertilidade natural, nos quais a atividade microbiana desempenha papel essencial na ciclagem de nutrientes e na facilitação da absorção de elementos menos móveis, como fósforo e micronutrientes.

O uso de remineralizadores é coerente com os princípios da agricultura sustentável, na medida em que: favorece insumos de baixo impacto ambiental; promove a redução da dependência de fertilizantes solúveis; estimula a atividade microbiana do solo e contribui para a ciclagem natural de nutrientes e para a formação de novos minerais úteis ao sistema edáfico. Esses atributos conferem aos remineralizadores relevância estratégica em sistemas agrícolas orientados à sustentabilidade, agricultura regenerativa e à eficiência de longo prazo.

 

Considerações finais

A interação entre minerais primários, matéria orgânica e microrganismos destaca-se como elemento central para a eficiência agronômica dos remineralizadores, condicionando a disponibilidade de nutrientes e a estabilidade da fertilidade ao longo do tempo.

Apesar dos avanços observados na caracterização e no uso agronômico dos remineralizadores, ainda persistem lacunas relevantes de conhecimento, especialmente no que se refere à dinâmica de liberação de nutrientes em longo prazo, às interações entre mineralogia e microbioma do solo e à resposta diferencial das culturas em distintos ambientes edafoclimáticos.

Estudos de maior duração e em escala regional são fundamentais para aprimorar recomendações técnicas, definir estratégias de manejo mais eficientes e consolidar o papel dos remineralizadores como componentes estruturantes de sistemas agrícolas sustentáveis.

Sara Lana Sousa Gonçalves
Taís Ferreira de Almeida

2026 - Abisolo

Palavras-chave:

Qualidade do solo, eficiência de uso do fósforo, intemperismo, agrominerais silicáticos, rochas silicáticas

Termos de indexação:

Micronutrientes, manejo do solo, ativação biológica do solo, disponibilidade de nutrientes, microrganismos solubilizadores

Referências bibliográficas:

Almeida, T.F.; Amaral, A.G. 2026. Bioinsumos: sustentabilidade e inovação na agricultura. IN: SOUZA, E. (Org.) Estudos em ciências agrárias, v. 5, Home Editora, p.:8-26.

BRASIL. 2025. Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA). Cadastro Nacional de Produtores de Remineralizadores. Brasília, DF, 2025. https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/insumos-agropecuarios/insumos-minerais/remineralizadores.

BRASIL. 2013. Lei nº 12.890, de 10 de dezembro de 2013. Altera a Lei nº 6.894, de 16 de dezembro de 1980, para incluir os remineralizadores como categoria de insumo destinado à agricultura e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 11 dez. 2013. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2013/lei/L12890.htm.

BRASIL. 2016. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Instrução Normativa nº 5, de 10 de março de 2016. Estabelece regras sobre definições, classificação, especificações, garantias, registro, embalagem, rotulagem e propaganda dos remineralizadores e substratos para plantas, destinados à agricultura. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 14 mar. 2016. https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/insumos-agropecuarios/insumos-agricolas/fertilizantes/legislacao/in-5-de-10-3-16-remineralizadores-e-substratos-para-plantas.pdf/view.

Ferreira, J.M.L. et al. 2023. Atividade biológica no solo e o uso de remineralizadores. Informe Agropecuário, 44, 321: 57-72.

Martins, E. de S.; Hardoim, P.R.; Martins, E. de S. Efeito da aplicação dos remineralizadores no solo. Informe Agropecuário, 44, 321: 49-56, 2023. Disponível em: http://www.alice.cnptia.embrapa.br/alice/handle/doc/1156814.

Reis, B.R. et al. 2024. Mudanças na estrutura da comunidade bacteriana do solo em um ensaio de curto prazo com diferentes pós de rocha silicatada. Chem. Biol. Technol. Agric. 11, 61. https://doi.org/10.1186/s40538-024-00586-w.

Swoboda, P.; Döring, T.F.; Hamer, M. 2022. Remineralizing soils? The agricultural usage of silicate rock powders: a review. Science of the Total Environment, 807: 150976. https://doi.org/10.1016/j.scitotenv.2021.150976.

Theodoro, S. H. et al. 2021. Rochas basálticas para rejuvenescer solos intemperizados. Revista Liberato, 22, 37: 1–20, 2021. https://doi.org/10.31514/rliberato.2021v22n37

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