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Uso de bioinsumos em plantações de eucaliptos: desafios e oportunidades
Evolução histórica e panorama atual da silvicultura brasileira
No Brasil, a silvicultura voltada ao abastecimento industrial teve início no século XX, quando espécies exóticas de rápido crescimento, como as do gênero Eucalyptus, foram introduzidas no país. Os experimentos conduzidos por Edmundo Navarro de Andrade, no estado de São Paulo, demonstraram o grande potencial dessas espécies para produção de madeira em curtas rotações (Foelkel, 2007; Ferreira, 2014). Nesta época, os plantios florestais eram tecnologicamente limitados e tinham como principal objetivo abastecer as companhias férreas com carvão e dormentes.
Um primeiro marco fundamental para a expansão da silvicultura brasileira ocorreu a partir da década de 60, com a criação do Programa de Incentivos Fiscais ao Reflorestamento, instituído pela Lei nº 5.106 de 1966[1]. Este programa permitia a dedução de parte do imposto de renda para investimentos em projetos florestais (Bacha, 2008), o que atraiu investimentos privados e impulsionou a implantação de extensas áreas com plantações de Eucalyptus e Pinus, subsidiando posteriormente a indústria de celulose, papel, painéis e carvão vegetal para siderurgia (Bacha, 2008; IBÁ, 2025).
A partir da década de 1980, a silvicultura brasileira passou por um processo de intensificação tecnológica, o que resultou em expressivos ganhos de produtividade. Programas avançados de melhoramento genético permitiram o desenvolvimento de genótipos de eucaliptos com maior crescimento, maior eficiência no uso de nutrientes e melhor adaptação às condições ambientais (Stape et al., 2004). Paralelamente, houve avanços significativos nas práticas silviculturais, incluindo: 1) O Cultivo Mínimo do solo, com preparo restrito à linha de plantio e manutenção dos resíduos florestais sobre a superfície do solo; 2) Fertilização mineral balanceada, baseada na produtividade esperada e em estudos sobre fertilidade e nutrição florestal (Barros et al., 2014); 3) Controle de plantas daninhas, reduzindo a competição por água, luz e nutrientes nas fases iniciais de crescimento; 4) Clonagem do Eucalyptus, o que permitiu a substituição progressiva dos plantios seminais e, consequentemente, maior homogeneidade dos povoamentos; etc. Esses avanços resultaram em um expressivo aumento da produtividade florestal. Enquanto os plantios de eucalipto apresentavam incrementos médios inferiores a 15 m³ ha⁻¹ ano⁻¹ nas décadas de 70 e 80; hoje, é comum observar produtividades superiores a 30 – 35 m³ ha⁻¹ ano⁻¹, colocando o Brasil entre os países com maior produtividade florestal do mundo (Stape et al., 2004; IBÁ, 2025).
Nos últimos anos, a silvicultura brasileira está em plena expansão novamente, rumo a novas fronteiras agrícolas. Estados como Mato Grosso do Sul tornaram-se importantes polos de produção florestal, impulsionados pela instalação de grandes indústrias de celulose e pela disponibilidade de áreas anteriormente ocupadas por pastagens degradadas (IBÁ, 2025). Entretanto, essa expansão ocorre frequentemente em regiões com déficit hídrico acentuado, o que traz novos desafios para o manejo florestal. A escassez hídrica e excesso de calor podem limitar o crescimento das árvores e aumentar a susceptibilidade a pragas e doenças, acarretando baixa produtividade. Nesse contexto, surgem importantes desafios científicos e tecnológicos, entre os quais se destacam: 1) desenvolvimento de materiais genéticos mais tolerantes ao estresse hídrico; 2) aprimoramento de práticas silviculturais voltadas à eficiência no uso da água e tolerância das plantas à seca, como por exemplo, o uso de fertilizantes especiais e/ou bioinsumos; 3) melhoria do manejo do solo e da fertilização em ambientes mais restritivos; 4) adaptação das plantações às mudanças climáticas.
- Bioinsumos no Brasil
Os bioinsumos compreendem produtos, processos ou tecnologias, de origem vegetal, animal ou microbiana, capazes de interferir positivamente no desenvolvimento dos sistemas produtivos agropecuários, florestais ou aquícolas (BRASIL, 2020; 2024). Geralmente, os bioinsumos são utilizados para promover melhor fertilidade do solo, nutrição vegetal e controle biológico de pragas e doenças, englobando uma ampla gama de tecnologias, como por exemplo, microrganismos benéficos, semioquímicos, bioestimulantes, probióticos, suplementos e remineralizadores (Vidal e Dias, 2023). O Brasil possui enorme potencial para o desenvolvimento e uso de bioinsumos, tanto pela biodiversidade como pela extensão de sua agricultura, pecuária e florestas plantadas. Esses insumos podem reduzir custos, impulsionar a bioeconomia, promover a produção orgânica, mitigar impactos ambientais e diminuir a dependência de fertilizantes minerais importados (Vidal e Dias, 2023; MAPA, 2024). Para fortalecer esse movimento, foi instituído o Programa Nacional de Bioinsumos (PNB), por meio do Decreto nº 10.375/2020[2], com diretrizes para pesquisa, regulação e fomento à inovação em bioinsumos no Brasil. A iniciativa está alinhada aos compromissos assumidos pelo país na Agenda 2030 da ONU, que inclui o aumento da produtividade agrícola de forma sustentável e a preservação dos ecossistemas naturais (UN, 2015).
Bioinsumos em Eucalipto
Uso em mudas
A qualidade das mudas florestais é um fator determinante para o sucesso do estabelecimento e do desempenho produtivo de plantações florestais. Nesse contexto, o uso de bioinsumos na fase de viveiro surge como uma estratégia promissora para o melhor desempenho (ex. enraizamento) de alguns clones de Eucalyptus ou Corymbia de dificil propagação. Microrganismos promotores de crescimento vegetal, como bactérias rizosféricas e fungos micorrízicos, favorecem o desenvolvimento radicular, a absorção de nutrientes e a eficiência no uso da água. Além disso, podem induzir respostas fisiológicas associadas ao aumento da tolerância a estresses bióticos e abióticos pós-plantio, como déficit hídrico, baixa disponibilidade de nutrientes e presença de patógenos (Vessey, 2003; Lugtenberg e Kamilova, 2009). No caso dos fungos micorrízicos, essa resposta está fortemente relacionada ao aumento da absorção de água e nutrientes devido, principalmente, à maior exploração do solo por meio das hifas extrarradiculares (Augé, 2001).
Tolerância aos estresses abióticos
A escassez hídrica e o excesso de calor, cada vez mais recorrentes devido às mudanças climáticas, impõem desafios sem precedentes à produtividade e sustentabilidade dos empreendimentos florestais. Os biostimulantes a base de extratos de algas, substâncias húmicas, hidrolisados proteicos, metabólitos vegetais e microrganismos promotores de crescimento atuam além da nutrição, modulando o metabolismo primário e secundário, a atividade antioxidante, o status hídrico e a fotossíntese, o que resulta em maior resiliência sob condições adversas (VAN Oosten et al., 2017; Bulgari et al., 2019; Liang et al., 2022)
Em culturas agrícolas, esses produtos têm mostrado capacidade de aumentar a eficiência de uso de água, a síntese de osmólitos (como prolina e açúcares), a atividade de enzimas antioxidantes e a manutenção da integridade de membranas e do aparato fotossintético em resposta a seca, sal e temperatura extrema (Asif et al., 2023; Rai et al., 2021). No caso do eucalipto, estudos de fisiologia e metabolômica indicam que clones mais tolerantes à seca acumulam arginina, derivados de ácido gálico, ácido cafeico, taninos e outros compostos fenólicos, bem como mantêm níveis mais altos de ciclitóis como mio-inositol, funcionando como marcadores de tolerância ao déficit hídrico (Picoli et al., 2021; Noleto-Dias et al., 2023; Nascimento et al., 2024). Embora existam resultados promissores relacionados ao uso de bioinsumos na silvicultura, especialmente no que se refere ao aumento da tolerância das plantas ao déficit hídrico logo após o plantio, ainda persistem lacunas significativas no conhecimento acerca da bioprospecção, do melhoramento e dos processos de propagação e produção desses bioinsumos em escala comercial.
Controle biológico de pragas e doenças
O manejo integrado de pragas e doenças destaca-se por integrar medidas preventivas, culturais, biológicas e químicas de forma racional (Tinoco et al., 2023). Inserido nesse conceito, o controle biológico consiste no uso de organismos vivos para reduzir a densidade e o impacto de praga (Barbosa et al., 2021). Os bioinsumos voltados ao controle biológico ganham destaque como ferramentas capazes de reduzir a população do inseto/praga ou microrganismo/patógeno a níveis abaixo do dano econômico da cultura, em escala operacional. Microrganismos, como fungos, bactérias e vírus, além de macrorganismos, como ácaros e insetos parasitóides, são a base desses produtos utilizados no controle de pragas e doenças (Bortoloti e Sampaio, 2021). O avanço dessas tecnologias em diferentes sistemas produtivos sinaliza uma mudança no padrão de manejo fitossanitário, com perspectivas de crescimento expressivo no mercado global nas próximas décadas (Damalas e Koutroubas, 2018).
O uso de bioinsumos contribui não apenas para o controle de pragas e doenças, mas também para o fortalecimento da microbiota do solo, promovendo maior estabilidade ecológica. No entanto, sua eficiência depende de fatores edafoclimáticos, do manejo silvicultural e da integração adequada com outras práticas, sendo necessário avanço científico e tecnológico para seu correto uso em campo.
Desafios e oportunidades
Na agricultura, muitos inoculantes microbianos performam bem em laboratório; mas, apresentam resultados inconsistentes no campo, dependendo da compatibilidade entre cepas, solo, clima e microbiomas locais, além da compreensão de sua ecologia e mecanismos de ação (O’Callaghan et al., 2022). Em plantações de eucalipto, as interações complexas entre árvores, microrganismos, detritos e solo por longo período (> 7 anos) tornam as respostas a inoculantes ou plantios mistos ainda mais complexas e difíceis de generalizar (Pereira et al., 2020; Pereira et al., 2019; Laclau et al., 2010).
Inoculantes eficazes exigem formulações com longa vida útil, compatibilidade com operações mecanizadas de viveiro e plantio, e sobrevivência em solos ácidos, pobres em nutrientes ou com baixa umidade. (Laclau et al., 2010; O’Callaghan et al., 2022), enquanto plantações em grande escala, altamente mecanizadas e sensíveis a custos, demandam protocolos adaptados à logística existente e retornos econômicos claros frente à fertilização mineral.
Estudos com bioinsumos em eucalipto são majoritariamente de curto prazo, focados em mudas ou povoamentos jovens, com evidências limitadas sobre efeitos na produtividade, absorção de nutrientes e resiliência aos estresses para rotações longas ou subsequentes (González-Díaz et al., 2019; Ren et al., 2020; Ribeiro et al., 2025), e o mercado global de inoculantes, pouco regulamentado, carece de ensaios de campo rigorosos em condições variadas (O’Callaghan et al., 2022). Por outro lado, em experimentos de estufa, biofertilizante com esterco de galinha e consórcio de Azotobacter e Azospirillum elevou altura, enraizamento e número de folhas em mudas de Eucalyptus grandis, com a dose de 500 g gerando os maiores ganhos e potencial para viveiros e campo (González-Díaz et al., 2019); em Eucalyptus urograndis, inoculantes com bactérias fixadoras de N, solubilizadoras de nutrientes, Bacillus subtilis e Trichoderma asperellum aumentaram biomassa e qualidade de mudas em 40–90 dias, viabilizando uso em viveiros comerciais (Ribeiro et al., 2025).
Na China, biochar combinado com rizobactérias promotoras de crescimento em mudas de eucalipto melhorou retenção de água no solo, níveis de NO₃⁻–N, potássio, diversidade bacteriana e abundância de filos benéficos, favorecendo sustentabilidade em plantações intensivas (Ren et al., 2020) , enquanto análises gerais indicam que inoculantes microbianos fixam N, solubilizam P e K, produzem fitohormônios, sideróforos e antibióticos que atuam no controle biológico de pragas e doenças (Elnahal et al., 2022; Seenivasagan e Babalola, 2021; Shahwar et al., 2023).
Considerações finais
A adoção de práticas silviculturais modernas e o uso de bioinsumos emergem como estratégias promissoras para aumentar a produtividade e a resiliência das plantações florestais, principalmente de Eucalyptus. A manutenção ou melhoria da saúde do solo, o estímulo à microbiota nativa, o controle biológico de pragas e doenças e a produção de mudas mais vigorosas contribuem para sistemas produtivos mais equilibrados. Entretanto, apesar do grande potencial dos bioinsumos, a sua adoção em larga escala ainda demanda avanços científicos, validações de longo prazo em condições de campo e maior integração com o setor operacional das empresas. O desenvolvimento de pesquisas que considerem as interações entre solo, planta, microrganismos e clima será fundamental para consolidar o uso em lagar escala dessas tecnologias, garantindo a sustentabilidade da silvicultura brasileira.
Alexandre de Vicente Ferraz
Beatriz Regolão de Cresci
Huga Géssica Bento de Oliveira Sousa
2026 - Abisolo