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Granulados Bioclásticos Marinhos: A nova fronteira para o acoplamento de tecnologias na agricultura sustentável e de baixo carbono

A agricultura moderna enfrenta o desafio monumental de aumentar a produtividade enquanto reduz a dependência de insumos importados e minimiza os impactos climáticos. Nesse cenário, os Granulados Bioclásticos Marinhos (GBM), compostos por algas calcárias do gênero Lithothamnium (Foster, 2001), emergem não apenas como corretores de solo, mas como uma plataforma tecnológica multifuncional capaz de acoplar fertilizantes, biológicos e componentes orgânicos em um único sistema (Cavalcanti, 2020). Essa capacidade posiciona os GBM como um insumo estratégico para a transição rumo a uma agricultura de baixo carbono e maior eficiência produtiva.

 A Estrutura Alveolada: O “Micro-Hotel” para a Vida e Nutrientes

O grande diferencial do GBM como plataforma reside em sua configuração física única. Com uma porosidade de aproximadamente 45% de seu volume e uma superfície específica que chega a ser 8 vezes maior que a do calcário tradicional (Cavalcanti, 2020), o GBM oferece uma rede complexa de nichos microscópicos. Essa estrutura “alveolada” funciona como um abrigo físico para a microfauna do solo, protegendo bactérias nitrificadoras e celulolíticas das variações do ambiente externo (Embrapa, 2022). Ao acoplar biológicos a essa plataforma, o produtor garante que os microrganismos tenham um suporte adequado para colonização imediata na rizosfera, aumentando a eficiência da inoculação e a atividade biológica no solo.

 

Acoplamento com Fertilizantes Minerais (NPK)

O GBM atua como um potencializador bioquímico quando associado a fertilizantes convencionais. A eficiência da adubação fosfatada no Brasil, historicamente baixa devido à acidez dos solos tropicais (Melo; Furtini Neto, 2003), é drasticamente melhorada quando “acoplada” à reatividade do Lithothamnium. Isso ocorre porque, embora os fertilizantes fosfatados costumem ter reação ácida, o GBM eleva o pH no microsítio de solubilização, impedindo que o fósforo seja fixado pelo ferro e alumínio do solo, tornando-o mais disponível para as raízes (Miranda, 1985). Além disso, a indústria já utiliza o GBM como componente em formulações de Fertilizantes de Eficiência Aumentada (FEA), onde ele fornece não apenas cálcio e magnésio, mas atua estabilizando as reações químicas e permitindo reduções de 10% a 40% nas doses de NPK sem perda de produtividade (Cavalcanti, 2020; Chalk et al., 2015), evidenciando o valor agregado desse insumo.

 

A Plataforma Orgânica e Bioestimulante

Ao contrário de minerais terrestres, o GBM possui uma fração orgânica ativa. Ele contém mais de 70 nutrientes e cerca de 16 aminoácidos que atuam como quelantes naturais, facilitando o transporte ativo de minerais para dentro da planta. Pesquisas indicam que o acoplamento do GBM com outros bioinsumos, como extratos de algas ou cianobactérias, gera um efeito sinérgico que potencializa a fotossíntese e a resistência a estresses abióticos (Amatussi et al., 2023). Além disso, a presença de substâncias húmicas recalcitrantes no GBM estimula a rizogênese (crescimento de raízes), criando um sistema radicular mais vigoroso e capaz de explorar melhor o perfil do solo (Ramos et al., 2023).

Os Granulados Bioclásticos Marinhos, derivados de algas do gênero Lithothamnium, possuem em sua fração orgânica cerca de 16 aminoácidos que atuam no desenvolvimento vegetal. De acordo com análises realizadas em produtos comerciais, a concentração de aminoácidos livres pode chegar a 1.400 mg/kg (0,15%), com destaque para a glicina e o triptofano, ambos predominantes com 400 mg/kg, seguidos pelo ácido aspártico e alanina com 200 mg/kg cada, além de prolina e valina com 100 mg/kg cada, e ácido glutâmico com 0,01 mg/kg (Amatussi et al., 2020).

A presença dessas substâncias confere ao GBM propriedades de um fertilizante bioestimulante, desempenhando papéis fundamentais no metabolismo vegetal (Ramos et al., 2023). Esses compostos potencializam respostas fisiológicas e sistêmicas de defesa, ajudando a planta a lidar com estresses bióticos e abióticos, como variações climáticas ou ataques de pragas. Os aminoácidos também atuam como quelantes naturais, facilitando a mobilidade e o transporte ativo de nutrientes para dentro da planta, o que aumenta a eficácia da nutrição mineral (Amatussi et al., 2020). Além disso, auxiliam na rizogênese e na formação de glucanas de cálcio, resultando em raízes mais fortes e vigorosas, e contribuem para processos fisiológicos essenciais como a síntese de clorofila, a melhoria da polinização, a regulação dos estômatos e a germinação (Ramos et al., 2023). O uso do Lithothamnium tem demonstrado, ainda, aumentar os teores de proteínas e aminoácidos totais em colheitas como tomate, cebola e feijão, agregando valor à produção agrícola (AMATUSSI et al., 2020).

 

Circularidade e Sustentabilidade: O Elo com o Plano ABC+

O uso dos granulados bioclásticos está intrinsecamente ligado à Agricultura de Baixo Carbono (ABC+), reforçando o papel estratégico desse insumo para uma agricultura mais sustentável (Embrapa, 2022). O cálcio presente nesta plataforma promove a formação de “pontes catiônicas”, que auxiliam na acumulação e fixação de carbono no solo, transformando a lavoura em um ativo ambiental e contribuindo para a mitigação das mudanças climáticas (Cavalcanti, 2011).

Outro potencial disruptivo é o uso do GBM para a recuperação de fósforo de efluentes. O material pode ser utilizado para “sequestrar” nutrientes de resíduos orgânicos e saneamento (Veneu et al., 2018; Veneu et al., 2019), retornando ao solo como um fertilizante organomineral enriquecido e circular. Essa aplicação amplia o papel dos GBM para além da nutrição vegetal, posicionando-os como protagonistas em estratégias de economia circular e gestão sustentável de nutrientes (Cavalcanti, 2020).

 Conclusão

Os Granulados Bioclásticos Marinhos representam a transição para uma agricultura sustentável e regenerativa (Embrapa, 2022). Como plataforma tecnológica, eles permitem o acoplamento entre fertilizantes e biotecnologias, otimizando a nutrição vegetal e revitalizando a saúde biológica dos solos tropicais (Cavalcanti, 2020). Com as maiores reservas mundiais localizadas na costa brasileira (ANM, 2021), o país tem em mãos a chave para uma soberania tecnológica baseada em insumos naturais de alta performance, complementando os outros sistemas de manejo da fertilidade de solos e da nutrição de plantas. A versatilidade, a eficiência comprovada e o alinhamento com os princípios da agricultura de baixo carbono consolidam os GBM como um ativo estratégico para o futuro da agricultura nacional.

Weber Amaral

2026 - Abisolo

Palavras-chave:

Algas calcárias, corretores de solo, microfauna do solo, acidez do solo, bioinsumos

Termos de indexação:

Extratos de algas, bioestimulante, biotecnologias, nutrição vegetal, manejo da fertilidade

Referências bibliográficas:

Agência Nacional de Mineração (ANM). 2021. Anuário Mineral Brasileiro.
Amatussi, J.O. et al. 2020. Novel use of calcareous algae as a plant biostimulant. Journal of Applied Phycology, v. 32.
Amatussi, J.O. et al. 2023. Synergic combination of calcareous algae and cyanobacteria stimulate metabolic alterations improving plant growth and yield, 2023.
Cavalcanti, V.M.M. (Org.). 2020. O Aproveitamento de granulados bioclásticos marinhos como alternativa para a indústria de fertilizantes no Brasil. Relatório Final. DNPM, Brasília.
Cavalcanti, V.M.M. 2011. Plataforma continental: a última fronteira da mineração brasileira. DNPM, Brasília.
Chalk, P.M. et al. 2015. Fate and efficiency of 15N-labelled slow- and controlled-release fertilizers. Nutrient Cycling in Agroecosystems.
EMBRAPA SOLOS. 2022. 1º Workshop Brasileiro de Lithothamnium: Uso de bioclásticos marinhos na agricultura. Documentos 232.
Foster, M.S. 2001. Rhodoliths: between rocks and soft places. Journal of Phycology.
Melo, P.C.; Furtini Neto, A.E. 2003. Avaliação do Lithothamnium como corretivo da acidez do solo e fonte de nutrientes para o feijoeiro. Ciência e Agrotecnologia.
Miranda, L.N. 1985.Utilização de calcários marinhos como corretivos de acidez do solo. Revista Brasileira de Ciência do Solo.
Ramos, E.P. et al. 2023. Lithothamnion sp. as biostimulant in plant cultivation. Pesquisa Agropecuária Tropical.
Veneu, D.M. et al. 2018. Cadmium removal by bioclastic granules (Lithothamnion calcareum). Environmental Technology.
Veneu, D.M. et al. 2019. Nickel sorption using bioclastic granules as a sorbent material. Journal of Materials Research and Technology.

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