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Levantamento de micronutrientes no cinturão citricola brasileiro

Durante toda a sua história a Citricultura Brasileira enfrentou inúmeros desafio, em especial aqueles relacionados a problemas fitossanitários. Contudo, essas adversidades forçaram os citricultores a adotarem novas tecnologias, tais como: adequação no preparo inicial do solo na implantação do pomar, adensamento de plantio, mudanças na combinação copa/porta enxerto, produção de mudas em viveiros protegidos, intensificação dos tratos fitossanitário, aumento das áreas (ferti)rrigadas, ajustes no manejo de adubação e outras avanços no sistema de produção. A adoção dessas novas práticas culturais trouxe substanciais ganhos de produtividade no Cinturão Citrícola Brasileiro (área compreendida pelo Estado de São Paulo e Triângulo/Sudoeste Mineiro), sendo que nos últimos 30 anos o rendimento médio dos pomares dessa região mais do que duplicou (Figura 1) passando de algo próximo 17 ton ha-1 no final da década de 80 para mais de 42 ton ha-1 na safra 2019/2020.

 

 

 

Figura 1. Produtividade média quinquenal de laranjas no Cinturão Citrícola Paulista (Adaptado Instituto de Economia Agrícola e PES – Fundecitrus)

 

No entanto, nos novos cenários da citricultura em que se buscam pomares cada vez mais produtivos já nos primeiros anos após plantio, o manejo de nutrientes, em especial o de micronutrientes deve ser otimizado de forma a atender a maior demanda da planta. Além do aumento de produtividade, outros fatores também vêm intensificado as deficiências de micronutrientes na citricultura brasileira, entre estes pode-se destacar: (i) precocidade na produção, pomares com quatro anos de idade produzindo mais que 20 ton ha-1; (ii) utilização de variedades mais exigentes em micronutrientes, exemplo, o porta-enxerto de citrumelo Swingle, que hoje representa mais de 70% dos novos plantios, possui maior demanda de boro (B) que o limão Cravo variedade que anteriormente ocupava mais de 90% dos porta-enxertos de nossa citricultura; (iii) aumentou no número de produtos na mistura do tanque de pulverização devido a maior incidência de problemas fitossanitários, o que aumenta as chances de incompatibilidade entre produtos e diminui a eficiência de absorção dos micronutrientes pelas folhas, sendo que à adubação foliar sempre foi realizada em conjunto com a aplicação de defensivos; (iv) redução do volume da calda de pulverização por aplicação, o que reduz custos operacionais, contudo, também reduz a eficiência de absorção dos nutrientes pelas folhas; e (v) as mudanças climáticas que vêm ocorrendo nos últimos anos no cinturão citrícola, as quais acarretam perdas significativas de produção devido à queda de flores e frutos após dias de intenso calor e alta radiação. Nesse sentido, o manejo otimizado de micronutrientes, como por exemplo o de zinco (Zn), pode mitigar os impactos da alta radiação e temperatura devido ao papel-chave que o nutriente desempenha na desintoxicação de espécies reativas de oxigénio, as quais são danosas às plantas.

Como destacado anteriormente, os desafios enfrentados na produção de citros forçaram os citricultores adotarem novas tecnologias nas mais diversas áreas do sistema de produção, entre os quais se destaca o manejo adequado de nutrientes. Fato este, que em parte, pode ser comprovado pelo levantamento realizado pela Abisolo (Tabela 1), associação que representa a indústrias de tecnologia em nutrição vegetal, a qual comercializa produtos com matérias-primas diferenciadas e com incremento de tecnologia, tais como: fertilizantes foliares, orgânicos, organominerais, condicionadores de solo e substrato para plantas. No consumo total de produtos de nutrição vegetal com tecnologia diferenciada, das grandes culturas, a citricultura ocupa a quinta posição, contudo, quando se faz uma relação entre a porcentagem de vendas de produto e a área plantada por cultura, a citricultura é a cultura que mais consome produtos com tecnologia agregada, chegando a consumir quase dez vez mais produto por área do que a cana-de-açúcar. A relação entre a porcentagem de vendas desses produtos com a área plantada de cada cultura gera um indicativo do nível tecnologia empregada por hectare, esse nível elevado de tecnologia empregada pelo setor citrícola, em parte, ajuda a explicar os ganhos de produtividade obtidos nos últimos anos.

 

Tabela 1. Relação entre a porcentagem de vendas de insumos com tecnologia em nutrição vegetal e a área plantada por cultura.

Vendas por cultura1 Área2 Vendas / Área
% milhões ha % / milhões ha
Soja 47 36,4 1,3
Milho 11 18,0 0,6
Café 9 1,8 5,0
Cana-de-açúcar 6 9,1 0,7
Citros 4 0,6 6,7
Algodão 3 1,2 2,5
Feijão 3 0,9 3,3
Pastagem 1 90,0 <0,1
Arroz 1 1,7 0,6
Outras 15            –

1 % Vendas por Cultura (Fertilizantes Foliares, Orgânicos, Organominerais, Condicionadores de Solo e Substrato para Plantas) – Adaptado Anuário Abisolo, 2019.

2 Fontes diversas.

 

O Grupo de Nutrição dos Citros do Instituto Agronômico (IAC) realiza há mais de duas décadas pesquisas para otimizar as respostas dos pomares à adubação, e nos últimos anos vêm concentrando esforços em estudos sobre o suprimento de micronutrientes tanto via solo quanto via folha. De forma geral, a recomendação de adubação foliar é restrita a aplicação de micronutrientes metálicos como Zn, manganês (Mn) e cobre (Cu), cuja aplicação no solo é menos eficiente e depende da interação do nutriente com a matriz coloidal do solo. No caso do B a aplicação do nutriente deve ser feita preferencialmente via solo, podendo ser realizada juntamente com a calda de herbicidas de contato, a qual constitui uma forma mais e eficiente para aplicação do micronutriente na citricultura. Contudo, em pomares na fase de formação, cuja idade é inferior a 4 anos, aplicações foliares complementares de B podem ser recomendadas, buscando-se sempre que possível associar com as pulverizações dos tratamentos fitossanitários (Quaggio et al., 2018).

O correto manejo de micronutrientes é fundamental para garantir boas produtividades, com o intuito de avaliar a atual situação do nível de micronutrientes no cinturão citrícola brasileiro foi realizado um levantamento nas amostras de solo e de folha, provenientes de pomares comerciais, que foram enviadas para o Laboratório de Análises de Solo e Planta do IAC. O Laboratório do IAC é referência brasileira na análises químicas de solo e planta e é responsável pelo desenvolvimento dos métodos de analíticos do Sistema IAC, o qual utiliza os métodos de B em água quente e para os metais (Cu, Fe, Mn e Zn) o método do DTPA-TEA (Raij et al., 2001) e para tecido vegetal o método de Bataglia et al. (1983). Além das atividades de pesquisa o Laboratório também faz análises para produtores rurais, atendendo parte dos citricultores do cinturão citrícola brasileiro, os quais de forma geral possuem bom manejo tecnológico. Entre 2013 a 2019 foram realizadas anualmente mais de 5000 análises de solo ou de planta de pomares comerciais de citros (Tabela 2). Considerando que cada amostra represente um talhão (≈10 ha) a população amostral trabalhada neste levantamento (Figuras 2 e 3) representaria mais de 10% da área total de citros no país.

 

Tabela 2. Número de amostras de solo e de folhas, provenientes de pomares do cinturão citrícola brasileiro, analisadas pelo Laboratório do Centro de Solos e Recursos Ambientais do IAC.

2013 2014 2016 2017 2018 2019 Média
  n. de amostras analisadas
Folha 7106 7157 6014 4147 4207 3916 5425
Solo (0-20cm) 6953 5853 4424 4451 4249 4405 5056

 

De forma geral, a média anual dos teores de micronutrientes, tanto no solo quanto nas folhas, estiveram dentro das faixas consideradas adequadas, com exceção apenas para o Cu que apresentou valores bastante superiores aqueles considerados adequados (Figura 2 e 3). Os aumentos nos teores de Cu nas folhas e no solo estão diretamente relacionados ao aumento na incidência de Cancro Cítrico, doença cujo principal manejo fitossanitário consiste na aplicação de defensivos cúpricos. Contudo, boa parte do Cu encontrado, especialmente no limbo foliar, não está em uma forma disponível para a planta podendo ser considerado apenas como contaminante na análise química. Apesar das médias anuais de micronutrientes, tanto no solo quanto nas folhas, estarem dentro da faixa considerada adequada, este valor não representa a realidade de inúmeros pomares. Entre os micronutrientes, B, Mn e especialmente Zn foram os que apresentaram as maiores porcentagens de amostras com teores inferiores aos adequados (Figuras 2 e 3). Em média, a porcentagem de amostras de solo com teores de micronutrientes inferior aos adequados foram maiores do que as amostras folhas. Cerca de 25 dos talhões apresentaram amostras de solo com os teores de B e Mn inferiores ao adequado, enquanto, para o Zn esse valor ficou próximo do 50% (Figura 2). Enquanto para as folhas, a porcentagem média de amostras com teores de micronutrientes inferiores ao adequado foram de 8,2%, 22,4% e 36,7%, respectivamente para B, Mn e Zn.

A porcentagem de amostras de folhas com teores de Zn inferiores ao adequado vêm aumentando nos últimos anos, passando de 19,4% em 2016 para 48,5% em 2019 (Figura 3). Este fato, pode estar diretamente relacionado ao aumento das pulverizações com defensivos cúpricos, o que aumenta a quantidade de Cu na calda de pulverização e consequentemente reduz a eficiência de absorção de Zn pelas folhas.

Os solos brasileiros são ricos em ferro (Fe) e este micronutriente não costuma ser recomendado em nossos pomares, assim, não foram verificadas flutuações nos teores médios anuais de Fe, além disso, este foi o micronutriente que apresentou as menores incidências de amostras com valores inferiores aqueles considerados adequados, tanto nos solos (  = 0,4%) quanto nas folhas (  = 2,6%).

As informações abordadas nesse artigo focam na importância de um manejo equilibrado de micronutrientes para a citricultura, o levantamento realizado demonstra que Zn, Mn e B foram os micronutrientes mais limitantes à produção de citros, e que a correção de Zn e Mn deve ser feita via pulverização foliar, enquanto a aplicação de B deve ser realizadas preferencialmente via solo. Além do mais, atenção especial deve ser dada ao uso intensivo de defensivos cúpricos, buscando outras estratégias de manejos fitossanitário a fim de reduzir as quantidades de Cu aplicadas, o que em algumas situações podem já estar comprometendo a produtividade dos pomares do cinturão citrícola brasileiro.

 

Figura 2. Média anual (N ≈ 5056 amostras/ano) do teor de micronutrientes (B, Cu, Fe, Mn e Zn) nas amostras de solo provenientes de pomares comerciais do cinturão citrícola brasileiro, enviadas para o Laboratório de Análise Química de Solo e Planta do IAC e porcentagem de amostras com teores de micronutrientes inferiores aos adequados. Nas figuras com as concentrações foliares de micronutrientes, a área destacada representa a faixa considerada adequada (Quaggio et al. 2018).  = média dos anos.

 

Figura 3. Média anual (N ≈ 5425 amostras/ano) da concentração foliar de micronutrientes (B, Cu, Fe, Mn e Zn) em folhas de citros, provenientes de pomares comerciais do cinturão citrícola brasileiro, enviadas para o Laboratório de Análise Química de Solo e Planta do IAC e porcentagem de amostras com teores de micronutrientes inferiores aos adequados. Nas figuras com as concentrações foliares de micronutrientes, a área destacada representa a faixa considerada adequada (Quaggio et al. 2018).  = média dos anos.

Rodrigo M. Boaretto
Dirceu Mattos Jr.
Mônica F. Abreu
José A. Quaggio

2020 - Abisolo

Palavras-chave:

Tratos fitossanitários, práticas culturais, porta-enxerto, boro, custos operacionais, pomar, produção de mudas

Termos de indexação:

Manejo de nutrientes, micronutrientes, estresse abiótico, manejo tecnológico, produtividade das culturas

Referências bibliográficas:

Anuário Abisolo (2019). 5º Anuário Brasileiro das Indústrias de Tecnologia em Nutrição Vegetal. Disponível em . Acesso em 15/01/2020.
Bataglia, OC; Furlani, AMC; Teixeira, JPF; Furlani, PR; Gallo, JR (1983). Métodos de Análise Química de Plantas, Campinas: IAC. 48p. (Boletim Técnico 78)
PES - Pesquisa de estimativa de safra (2019). Fundo de Defesa da Citricultura. Disponível em . Acesso em 05/01/2020.
Quaggio JA, Boaretto RM, Mattos Jr. D (2018) Recomendações para calagem e adubação de citros. 1º Simpósio sobre os avanços na nutrição de citros e café, Instituto Agronômico, Campinas.
Raij, B Van; Alcarde, JC; Cantarella, H; Quaggio, JA (2001). Análise química para avaliação da fertilidade de solos tropicais. Campinas: IAC. 285p

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