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Importância do Mo no manejo das culturas

O aumento de produtividade e a demanda pela maior eficiência de uso de nutrientes na agricultura é crescente, assim como a produção brasileira. Deste modo, nutrientes menos utilizados no passado têm ganhado espaço no manejo das lavouras e mais atenção nas pesquisas, isso porque em muitos casos a produtividade é limitada por eles, como exemplo temos boro, zinco, cobre e molibdênio em áreas de cana-de-açúcar (Mellis et al., 2017). Ou seja, cada vez mais o ajuste fino do sistema é necessário para atingir o potencial produtivo das culturas. O grande desafio é que intervalos adequados, ou faixas de suficiência, para os micronutrientes, situados entre os limites de deficiência e toxicidade, apresentam uma margem estreita.

O molibdênio (Mo) foi o penúltimo elemento químico a ser descoberto e sua concentração nos tecidos foliares, é próximo a 1 mg kg-1 (Polidoro et al., 2006). Já no solo sua quantificação em análises de rotina não é realizada devido a dificuldades metodológicas, mas sabe-se que o teor total varia entre 0,01 a 17 mg kg-1, dos quais estima-se que apenas 10 % encontram-se disponíveis para as plantas (Kabata-Pendias 2011).

Os micronutrientes são muitas vezes responsáveis por limitar a produtividade das culturas, quando em baixa concentrações, como geralmente é o caso do Mo, pois está diretamente relacionado ao metabolismo do nitrogênio (N) e, consequentemente, ao seu aproveitamento pela planta. A omissão de Mo reduz a atividade do nitrato redutase, urease e desintoxicação de sulfetos; além de participar do processo de fixação biológica de N (Sun et al., 2009; Xiong et al., 2001; De Carvalho et al., 2011; Wu et al., 2014).

O Mo é responsável por atuar na primeira etapa da redução do nitrato, transformando-o em nitrito. O processo de redução do nitrato é crítico, uma vez que apenas o amônio (NH4+) pode ser assimilado (Mendel 2011, Reyes et al. 2018). Quando a conversão de nitrato em amônio é baixa, a planta acumula nitrato no vacúolo e reduz a sua eficiência de utilização de fertilizantes nitrogenados (Ide et al. 2011).

De modo geral, a deficiência de Mo não impacta de maneira drástica a biomassa das plantas, devido a variações experimentais, mas podemos observar efeitos na atividade fotossintética e bioquímica das plantas que indicam melhor funcionamento da estrutura ligada ao metabolismo do N quando este nutriente está disponível para as plantas (Polidoro, 2001, Hu et al. 2002, Yu et al. 2006, Mellis et al. 2017, Santos et al. 2018). Outro fator que deve ser levado em consideração ao incluir a adubação molibdica é o papel do Mo em influenciar a resistência ao déficit hídrico e ao estresse térmico nas plantas, devido à sua participação na síntese de ácido abscísico e possível influência na regulação estomática, favorecendo a manutenção da produtividade em condições adversas (Sun et al. 2009, Xiong et al. 2001).

O ganho produtivo pelo fornecimento de Mo é comumente avaliado em culturas que fixam N de forma expressiva devido à sua participação na nitrogenase presente nos nódulos (Philippi et al., 2021). Os ganhos para culturas não fixadoras de N, como a cana-de-açúcar e o milho, são questionáveis devido também ao número limitado de estudos na literatura (Thapa et al., 2016; Mellis et al., 2017; Santos et al., 2018). Vários fatores contribuem para isso, entre eles a dificuldade de quantificação do elemento nos tecidos foliares devido à sua baixa concentração, as respostas variáveis à aplicação de Mo e a dificuldade de distribuição de pequenas quantidades do elemento no campo.

A interação entre o Mo e o N é referida na literatura como positiva, uma vez que melhora a utilização do N no tecido vegetal. Entretanto, tal dado não é abordado diretamente. Isso porque a maioria dos trabalhos são focados na avaliação da deficiência de Mo e consequentemente destacam sua baixa interação com N por meio das atividades enzimáticas da redutase do nitrato e o teor de nitrato na planta. No entanto, o Mo também pode influenciar diretamente a absorção de formas de N, uma vez que modifica a proporção de nitrato e amônio na planta (Moreira, 2022). Esta condição é possível porque a absorção de nitrato é controlada por um gradiente de concentração, ou seja, se houver menos nitrato livre nas células, a absorção de nitrato é maior. Em um estudo desenvolvido por Oliveira et al. (2022) foi avaliado o impacto da aplicação foliar de Mo na dose de 30 g Mo ha−1, (K2MoO4), no estágio V4 de soja e milho em comparação a não aplicação. Os autores encontraram um aumento nas concentrações de nitrogênio e proteínas, atividade da redutase de nitrato, atividade da Rubisco, fotossíntese líquida, e, consequentemente, uma maior produtividade de grãos nas culturas tratadas com Mo.No entanto o molibênio é um nutriente pouco utilizado pela maioria dos produtores no Brasil, devido à falta de recomendação oficial, condição alterada recentemente para algumas culturas com a atualização do Boletim 100. Porém ainda há uma limitação no uso deste nutriente, pois devido as baixas quantidades recomendadas existe uma limitação operacional para aplicação, principalmente via solo, que normalmente resulta em baixa homogeneidade. Com isso, o Mo requer estratégias viáveis para fornecê-lo às culturas, e por isso, estudos mais recentes tem avaliado o comportamento da associação de ureia a fontes e doses de Mo (Moreira et al., 2024). Neste caso, foi proposto pela autora a adição de Mo ao granulo da ureia tanto no recobrimento quanto na incorporação. No entanto, foi observado que doses elevadas de Mo reduz a qualidade físico química do fertilizante nitrogenado, sendo, portanto, sua dose de aplicação a campo limitada por processos industriais. Já em doses baixas de Mo, não houve alteração na qualidade da ureia, com isso, tal procedimento pode ser realizado. Tais estratégias são bem-vindas não apenas para o Mo, mas também para outros micronutrientes, pois facilitam a distribuição a campo e permitem aplicação em cobertura, junto a fontes nitrogenadas com maior facilidade.

Lílian Angélica Moreira
Rodrigo Nogueira de Sousa

2024 - Abisolo

Palavras-chave:

Fertilizantes, fisiologia vegetal, produtividade, cana-de-açúcar, nitrogenase

Termos de indexação:

Tecidos foliares, aplicação foliar, fontes nitrogenadas, micronutrientes, toxicidade

Referências bibliográficas:

De Carvalho TLG, Ferreira PCG, Hemerly AS (2011) Sugarcane Genetic Controls Involved in the Association with Beneficial Endophytic Nitrogen Fixing Bacteria. Tropical. Plant Biology, 4(1), 31–41.
KABATA-PENDIAS A. Trace Elements in Soils and Plants. 4th Edition. CRC Press, Taylor and Francis Group, Boca Raton, 2011. p. 505.
Mellis EV, Quaggio JA, Becari GRG, Teixeira LAJ, Cantarella H, Dias FLF (2017) Effect of micronutrients soil supplementation on sugarcane in different production environments: Cane plant cycle. Agronomy Journal, 108, 2060–2070.
Moreira, LA. Development, characterization and efficiency of nitrogen fertilizer associated with molybdenum nanoparticles. Tese (Doutorado em Ciência do Solos e Nutrição de Plantas) – Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, Universidade de São Paulo. São Paulo, p. 104. 2022.
Moreira LA, Otto R, Guerrini FB, Carvalho HWP, Ferraz-Almeida R, Bendassoli JA, Junior JL, Mariano E. (2024) Adding molybdenum to urea changes its characteristics and can react with N-(n-butyl) thiophosphoric triamide. Scientia Agricola (no prelo)
Philippi M, Kitzinger K, Berg JS, Tschitschko B, Kidane AT, Littmann S, Marchant HK, Storelli N, Winkel LHE, Schubert CJ, Mohr W, Kuypers MMM (2021) Purple sulfur bacteria fix N2 via molybdenum-nitrogenase in a low molybdenum Proterozoic ocean analogue. Nature communications, 12(1), 1-12.
Polidoro JC, Fernando A, Medeiros A, Pontes R, Medeiros JA, Boddey RM, José B (2006) Analysis Evaluation of Techniques for Determination of Molybdenum in Sugarcane Leaves. Communications in Soil Science and Plant, 37–41.
Sun X, Hu C, Tan Q, Liu J, Liu H (2009) Effects of molybdenum on expression of cold-responsive genes in abscisic acid (ABA)-dependent and ABA-independent pathways in winter wheat under low-temperature stress. Annals of botany, 104(2), 345-356.
Thapa U, Prasad PH, Rai R (2016) Studies on Growth, Yield and Quality of Broccoli (Brassica Oleracea L.Var Italica Plenck) as Influenced by Boron and Molybdenum. Journal of Plant Nutrition, 39(2) 261–267.
Wu S, Hu C, Tan Q, Nie Z, Sun X (2014) Effects of molybdenum on water utilization, antioxidative defense system and osmotic-adjustment ability in winter wheat (Triticum aestivum) under drought stress. Plant Physiology and Biochemistry, 83, 365-374.
Xiong L, Ishitani M, Lee H, Zhu JK (2001) The Arabidopsis LOS5/ABA3 locus encodes a molybdenum cofactor sulfurase and modulates cold stress–and osmotic stress–responsive gene expression. The Plant Cell, 13(9), 2063-2083.

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