Conexão Ciência
Vídeos

Solo: a nova (velha) fronteira da produtividade

Resumo

Palestra realizada por Fernando Andreote – Professor Associado em Microbiologia do Solo da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, durante o IX Abisolo Fórum e Exposição realizado em 2022


Transcrição

A nossa próxima palestra fala sobre solo, a nova velha fronteira da produtividade. Então nós vamos, dentro do painel adoção de tecnologia, convidar para vir conosco ao palco o doutor Fernando Andreotti, que vai receber uma salva de palmas. Professor Associado Microbiologia do Solo na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, Universidade de São Paulo, doutor Fernando Engenheiro, agrônomo e doutor em Genética e Melhoramento de Plantas, tem como objetivo principal gerar conhecimento para o desenvolvimento de uma agricultura mais produtiva e sustentável, tendo a biologia do solo como base da inovação. Vamos atentos a aprender um pouco mais com o conhecimento deste jovem conhecedor. podem aplaudir, fiquem à vontade. Pessoal, bom dia. Eu preciso começar primeiro agradecendo o convite da Bissola por estar presente. Acho que eu estive no evento 2017 ou 2018, foi muito bacana, são eventos que fazem a gente pensar diferente. E depois dizer que eu não sabia se eu entrava no octógono dando uma estrela ou fazendo aquecimento, mas você ajudou no exercício inicial. Primeira vez que eu vou dar palestra no octógono e para quem gosta do UFC, que nem eu, sabe o que eu estou falando. E terceiro, a Fernanda, não sei se ela está aí, mas ela me pôs numa fria, porque ela falou, professor, eu quero que você faça uma palestra sobre solo em geral. E eu sou agrônomo, mas meu doutorado é em genética, então eu aprendo solo todos os dias com os colegas do departamento que eu tenho hoje. Minha linha é biologia do solo, mas eu vou tentar cumprir o desafio que a Fernanda me pôs aqui. Falando um pouco de biologia e mais numa análise crítica de alguém que não surgiu nesse meio solo, como é que a gente vê hoje solo, como é que a gente pensa em qualidade de solo, como é que a gente particiona essa qualidade de solo e quais os desafios, talvez não novos, antigos, que a gente precisa revisitar a todo momento, pensando em qualidade desse ambiente que a gente explora de forma intensa. na agricultura. Então esse título solo a nova fronteira de produtividade, esse velho quem pôs aí fui eu, tá? Já comecei a análise crítica por aí, foi o topo desafio, mas o título tem que ser a nova velha fronteira de produtividade, porque sempre foi, eu acho que sempre vai ser uma fronteira pra gente, um desafio pra gente cada vez melhor manejar solo como um todo. Dentro disso, o que eu queria começar colocando para vocês? Queria colocar o seguinte, quando a gente pensa em qualquer sistema de produção, e acho que a palestra do Cristiano que veio antes foi muito boa, para mim foi uma bela aula de sistema integração, e ela expõe um pouco do que eu estou trazendo. O nosso desafio maior em agricultura, seja docente, professor, pesquisador como eu, seja quem trabalha em empresa, seja quem é consultor, seja quem é produtor, é a gente montar um quebra-cabeça que tem um monte de peças, mas que cada um que monta tem uma figura final diferente. Acho que as ferramentas estão aí, as ideias estão aí, os conceitos estão aí, mas cada pessoa que põe a mão nisso e que vai lá e tenta montar esse quebra-cabeça, nunca chega na mesma imagem que o colega fez anteriormente. E é por isso que traz a paixão na agricultura, né. Quem trabalha em agricultura é apaixonado, né. Você vai num bar tomar cerveja, tá falando o que? Agricultura. Domingo, tá falando o que? Vendo se vai chover, né. Todo dia tá vendo preço, mesmo que não vá vender, né. Então é uma paixão que traz por quê? Porque a gente preserva esse espírito de experimentação. um espírito científico, onde eu estava numa escola de segundo grau falando sobre a vida no ambiente acadêmico e eu falei para eles assim ó, todo mundo nasce cientista e algumas profissões preservam esse espírito cientista e a agricultura é uma delas. Porque a gente tem a habilidade, a chance de inovar, de fazer do nosso jeito, de testar coisas novas. E aí, quando você acha que aprendeu tudo, vem coisas novas e você aprende cada vez mais. Então, dentro desse quebra-cabeça nosso, eu pus aí vários nomes, eu não vou ficar falando tudo que está no slide, vou tentar conduzir mais a nossa conversa. Dentro dessa quebra-cabeça, existem algumas peças que são um pouquinho mais fixas, um pouco mais desenvolvidas até. Vou dar um exemplo de nutrição de plantas, uma coisa que a gente desenvolve bastante, mas temos uma boa base, vocês veem quantas tabelas aparecem, análise de solo, análise foliar, a parte de fertilizantes muito desenvolvida e cheia de novidades de novo. Outras partes desse quebra-cabeça são menos desenvolvidas, com menos conceitual, eu vou pôr a biologia do solo que eu trabalho nessa parte em desenvolvimento, mas não vou focar só nela. Mas o fato é que se eu pensar no que acontece no solo, ainda ali eu tenho uma grande parte do desconhecido. Sintomatologia de doença, folhear é fácil, de raiz é difícil. Desenvolvimento da planta, eu observo, meço, tiro foto, faço NDVI e vejo a parte aérea, a parte de raiz, quem faz trincheira e olha o desenvolvimento de raiz? Então quando a gente começa a fazer esse comparativo do que acontece em cima do solo e embaixo do solo, eu ouso dizer que o que está embaixo do solo ainda é grande parte do desconhecido e, portanto, grande parte da oportunidade que a gente tem de aprimorar o sistema de produção. Aprimorar o sistema de cultivo, trazer eficiência para isso. Para que eu faça isso, agora vou entrar diretamente em solo, a gente tem que pensar num conceito que parece muito simples, mas não é, que a gente chama de qualidade de solo. Qualidade de solo é uma coisa genérica, se vocês forem estudar isso tem milhares de artigos e cada um que trabalha isso puxa para um lado. Eu estou tentando ser simplista aqui colocando o seguinte, eu penso como qualidade de solo quando eu consigo unir nesse solo uma série de características, uma série de capacidades que me fazem promover naquele solo o máximo desenvolvimento da planta cultivada. Em outras palavras eu digo o seguinte, quando uma semente vai para o chão, Ela tem um potencial de produtividade e a partir do momento que ela caiu no chão, ela só perde esse potencial. Por quê? Eventos de estresse vão tirando essa produtividade e no final da história a gente colhe o que sobrou e não o que a gente produziu. É triste pensar assim, mas é verdade. A gente colhe o que sobrou, porque os eventos de estresse foram diminuindo o potencial dessa planta e o que sobra é exatamente o que a gente colhe. Então nossa missão olhando para solo é fazer o seguinte, esse solo não pode ser um agente de estresse, não pode ser o agente que me roube o potencial genético da minha planta. Não pode ser o agente que me tire produtividade. E como é que a gente faz isso? Olhando em forma crítica para solos. Mas antes de fracionar o solo e entender o que ajuda a gente nisso, eu queria adicionar algumas missões nossas quando a gente fala sobre manejo de qualidade de solo. Porque só produtividade é uma coisa que a gente até faz bem, teve o exemplo de como a gente tem rentabilidade quando revoluciona métodos de manejo, mas surge para nós, principalmente quando a gente começa a falar no meio acadêmico e empresarial que é a maior parte que está aqui, Uma missão adicional que é prezar também por qualidade ambiental e qualidade de produção. Então não adianta eu produzir bem em quilos por hectare se eu tiver um sistema insustentável de alto impacto ambiental. Não adianta eu produzir bem em quilos por hectare se minha produção não tiver qualidade. Então a questão de qualidade de solo, de ar, de água começa a surgir para a gente como mandatório. E começa até a ser retribuído por isso. O Cristiano falou assim, logo a gente vai ter benefícios pela parte ambiental. Eu acho que é bem mais rápido do que a gente pensa. O mercado de carbono está se estruturando. Isso é uma grande evidência que a gente vai ter benefícios dentro de uma prática mais sustentável. E qualidade do produto é o que diferencia hoje muita gente. Vamos dar o exemplo de café. Qualidade de bebida muda o preço do que se produz? Astronomicamente. Em cana é verdade também, em soja começa a se discutir sobre isso, em carne também. Então veja como que a qualidade passa a ser fundamental. E para ter qualidade de produção, fisiologia vegetal é fundamental, fisiologia vegetal está ligada totalmente à qualidade de solo. Como a planta percebe o ambiente, como ela responde metabolicamente, como entrega uma produção diferenciada. Então começa a fazer sentido para a nossa igualdade desse solo, a igualdade não é só nutricional, faz parte, é fundamental, mas não é só nutricional, vai ser fundamental. Então, como a gente espera ver isso? A gente pode pensar o seguinte, no momento como esse, esse conceito de qualidade passa a ser mais importante ainda, porque a pergunta que eu mais recebi esse ano foi a seguinte, professor, a sua parte, biologia do solo, pode ajudar a gente a nutrir planta com menos fertilizante? Porque tá caro? É uma pergunta cruel, né? Depende demais do seu solo, depende demais da sua cultura, mas quando eu pus isso num desenho, saiu essa imagem que tá aí. A gente vem há muito tempo trabalhando com nutriente solúvel no suco de plantio, então a planta está envasada ali e se desenvolvendo muito bem. E quando a gente tem que explorar isso, a gente não pode deixar de lado a qualidade do solo. Por quê? Porque eu tenho que explorar a reserva nutricional. Então a primeira resposta para a pergunta que eu recebo é, seu solo tem reserva a ser explorada? Hoje se fala muito de solubilização de fósforo. O seu solo tem fósforo a ser solubilizado? Se não tiver, não tem o que fazer, solubilizar, né? Então essa questão de explorar o estoque do solo tem a ver com explorar a reserva nutricional e isso passa por enraizamento, que eu acho que é o próximo slide, não, vou falar depois. Mas enraizamento vegetal é fundamental. E quando que uma planta enraiza mais? Quando que uma planta enraiza menos? Exatamente quando ela percebe e sente aquele solo com características mais propícias a ela emitir raiz, que vale a pena esse enraizamento, ou quando ela tem algum limitante ela não enraiza. E quais são as características então de solo que vão trazer pra gente a chance de uma planta erraizar mais ou menos? É aí que a gente começa... separar as partes do solo para entender um pouquinho desse processo. Então se a gente construiu junto a ideia de qualidade de solo, agora a nossa ideia é entender como que a planta percebe esse solo em suas diferentes frações para ser uma planta bem enraizada. E aí eu diria o seguinte, nós temos pelo menos três, coloquei um quarto ali de forma tentativa, como é uma palestra desafio, eu usei alguns pontos aqui. Eu digo o seguinte, a gente tem parâmetros químicos que remete a enraizamento ou não, parâmetros físicos que vão dirigir enraizamento ou não, parâmetros biológicos que vão mostrar para a planta quando ela enraiza ou não e numa transversal de tudo isso a gente tem parâmetros bioquímicos, que aí é muito mais sensores, moléculas que são estimulantes ou não de enraizamento. Vamos passar um pouquinho por cada um desses, relembrando alguns conceitos, algumas coisas que eu vou pôr aqui vocês já sabem, todo mundo sabe. Até falei põe ou não põe, mas no final vocês vão entender porque eu pus, deixar um pouquinho de suspense. E vamos ver o que a gente não sabe. Então comecei da onde? Do mais fácil, física do solo e enraizamento vegetal. Está aí um pouquinho do que seriam limitações, do que seriam qualidades do solo que trazem enraizamento. É óbvio que se eu perguntar para qualquer um aqui no café, o que que impede a raiz, a planta de emitir raiz em solo fisicamente falando? Vai falar compactação. É verdade, mas falta de água também. Mas excesso de água também, por quê? Porque daí falta oxigênio. Então o balanço, a água e o oxigênio tem muito a ver com qualidade física estrutural de solo, com estruturação de agregado. Erosão, obviamente. E na qualidade, obviamente que é o oposto. Então solo bem estruturado, capacidade de retenção de água, isso tem muito a ver com diferencial de veranico. Vocês viram o trabalho da Ieda que foi mostrado antes, mostra muito bem isso. A permeabilidade de oxigênio, que tem a ver com a compactação. A gente esquece às vezes, se não tiver oxigênio a raiz também não desce. Por isso que em período de muita chuva, quando a gente faz plantio e tem muita água no sistema, a raiz fica superficial. Então veja como parece simples, mas é difícil. Por quê? Eu posso olhar isso aqui de forma simples, mas posso perguntar assim, quem conhece o solo que trabalha? Ah, eu conheço, meu solo é arenoso, meu solo é argiloso. É conhecer o solo que a gente trabalha, será isso? Ou a gente pode ir além? Quem tem um mapa de solo da área, da propriedade, quem tem tecnologia de mapeamento rápido de solo, existe, será? Não sei, estou deixando a pergunta no ar para a gente conversar depois. Vamos mudar o slide, está ficando difícil. Química. O que são parâmetros químicos que beneficiam o enraizamento vegetal que estão no solo? Mais fácil ainda, isso aí todo mundo tem na cabeça. Primeiro impedimento de enraizamento químico, alumínio. Primeira aula de agronomia, todo mundo sabe isso, né? Por isso tem que fazer correção, né? Tem a questão nutricional, todos os nutrientes são fundamentais, mas a gente pode destacar aí para a raiz, cálcio, boro, zinco, que são nutrientes mais desafiantes do nosso manejo. Se a gente tiver baixa quantidade desses elementos, a raiz não desenvolve. Contaminantes ambientais, algumas coisas que podem, antigamente mais metais pesados, hoje é um pouco de fitotroxidade que pode medir enraizamento. Essa aqui é simples, mas eu diria o seguinte, como é que eu sano esses problemas e trago as qualidades, que seria ausência de alumínio, nutriente, ausência de fitotroxidade, fazendo uma boa correção de solo, fazendo uma boa adubação, fazendo um bom manejo de herbicidas e outros elementos, beleza. A pergunta que dificulta a conversa aqui é, em que profundidade nós estamos conversando? Todo mundo aqui já viu uma área onde tudo isso é perfeito até 20 centímetros, para baixo disso é o caos. Então, tem um mundo a ser explorado ali. Então, quando a gente vê fotos como a gente viu de braquiária e de outras gramíneas descendo no perfil, é muito legal. Agora, é difícil ver fotos desse tipo com soja, com algodão, até com cana-de-açúcar a gente não vê. Então, fica um desafio da gente pensar de forma mais profunda no solo quando a gente está falando de parâmetros químicos. Então percebam comigo, física, vocês tinham uma expectativa do que ver nesses quadrinhos. Química, com certeza vocês sabem mais que eu, do que eu pus nesses quadrinhos, eu fui bem simplista para não errar. A pergunta começa a complicar agora quando eu falo. E parâmetros biológicos? O que o solo tem ruim de biologia que impede enraizamento? E por outro lado, quais são processos biológicos benéficos que estimulam o enraizamento? Ou melhor, se eu tiver biologia ativa, quanto essa planta precisa enraizar mais? Tem processos que imitam raiz? Aí a gente começa a enveredar para a biologia. Eu não vou fazer isso, prometi para a Fernanda. Então coloquei aqui o seguinte, principal impedimento biológico para enraizamento vegetal é simples, fungos patogênicos e nematóides. Quase não tem isso na agricultura brasileira, quase não é problema nenhuma cultura. Então veja como a gente tem ali uma evidência muito forte de problema de enraizamento que a gente tem dificuldade de controlar. O potencial disso é tão grande quanto o do alumínio, só que o alumínio a gente resolve com macalagem. Como é que eu resolvo o ataque de fungo nematóide? Passa por equilíbrio biológico de solo e é uma outra palestra, outra vertente. E qualidade, quais são as qualidades? Eu coloquei ali, presença de organismos benéficos. Quais benéficos? Todos que vocês estão pensando aí servem. Tricoderma, Bacillus, Azospirilla, tudo isso aí ajuda. São organismos conhecidamente benéficos para o sistema que interagem com as plantas. Mas eu tenho que pensar também em outros organismos mais genéricos que não precisam nem ter nome, que são chamados promotores de crescimento de plantas, que produzem moléculas que fazem isso, que disponibilizam nutrientes no sistema. Eu tenho que pensar na ausência de patogênicos, Eu tenho que pensar em uma eficiente ciclagem de nutrientes feita por organismos e até fugiu aqui, eu esqueci mas vou falar agora, existe um conceito importante que é biodiversidade e atividade biológica de solo. São parâmetros nativos do solo que muitas vezes se perdem na área de cultivo. Solos biologicamente ativos são muito mais atores, atuantes nesses ciclos diferentes que auxiliam no enraizamento vegetal. Então biodiversidade é um ponto-chave. E aí por fim, eu trago aqui o seguinte, bioquimicamente falando, quais processos eu posso ver também, é uma derivação de química e biologia e física junto, porque na verdade tudo isso que eu estou colocando acontece conjuntamente, a gente está separando aqui, quem estiver tomando nota depois cola uma figurinha em cima da outra. Eu falo isso em aula, os alunos fazem, não enxerga nada. Então veja, agora a gente tem que pensar que tudo acontece junto e o resultado é bioquímico. E qual o resultado bioquímico da interação da matriz mineral, da interação com o componente químico e da atividade biológica do sistema? Está muito ligado a um elemento chave, um elemento central, que vai ser o foco da segunda parte da minha fala, que é exatamente carbono. Então eu diria assim, um solo biologicamente ativo com qualidade química, física e material orgânico, biologia depende de material orgânico, não tem como ser bom em biologia com pouca matéria orgânica, a gente vai ter uma ciclagem eficiente de carbono e isso significa naturalmente produção de elementos indutores de atividade de plantas, como ácidos úmicos, ácidos fúlficos, alquicinas, aminoácidos e uma grande gama de metabólitos que direcionam, monitoram o funcionamento dessa interface solo-planta. Toda vez que eu tiro desse sistema toda essa eficiência, e isso eu até repeti aí os itens, toda vez que eu tiro do meu sistema carbono, essa transformação bioquímica, ela diminui, ela perde sua eficiência e, consequentemente, isso afeta diretamente componentes de qualidade química, física e biológica. Então existe um termo de conexão, um elemento que guia essas diferentes mertentes de qualidade do solo, que eu já contei um pouquinho, mas eu vou falar depois para vocês, sobre como é que a gente vê carbono no sistema. O desafio que isso é, vocês viram na palestra anterior um exemplo bem prático, eu vou ser um pouquinho mais teórico e vou fechar com um estudo que a gente fez na Isao. Muito bem, baseado em tudo isso, a gente agora entende exatamente um pouquinho de como é que eu posso olhar para diferentes pontos, diferentes características, diferentes variáveis no meio ambiente de solo, quantificar e monitorar esses elementos e entender como faço o manejo para aprimorar cada uma delas. A pergunta é, dentro de todas as possibilidades que nós temos, em que nível de resolução nós atuamos hoje para entender qualidade de solo? De todos esses elementos que a gente viu que podem, existem outros? Tenho certeza que se eu abrisse aqui o microfone surgiriam mais 10 parâmetros? Quais a gente realmente mede, mensura, entende como é que segrega em diferentes sistemas? Pouco, né? Por isso que o título da palestra é o solo como uma nova velha fronteira de produtividade. Tem muito espaço para a gente inovar nesse ponto, tem muito espaço para a gente trazer novidades realmente que tragam um outro parâmetro de como o solo é exposto ou disponibilizado para uma planta se desenvolver. Então dentro da nossa história, o que a gente vai ter? Se eu fizer um comparativo, quais são os maiores desafios ou os melhores benefícios que nós temos no solo agrícola para enraizamento? Veja, quando eu comparo, isso aqui é uma imagem muito didática, onde eu tenho uma área nativa, uma área de agricultura lado a lado, dá para fazer uma aula inteira só nessa foto, mas aí eu trouxe o quê? Alguns parâmetros que a gente viu, não pus todos para não ficar extenso, mas acontece o seguinte, quando eu faço agricultura, alguns parâmetros que nós vimos como benéficos para a qualidade do solo, eles são aprimorados. E aí eu coloquei pH, logicamente ausência de alumínio e disponibilidade de nutriente. Esses são parâmetros que a gente corrige, faz bem e agora a planta é raiz a melhor do que se eu colocar essa mesma semente numa área nativa. O sonho de que o solo da área nativa é perfeito, para quem é um pouquinho técnico sabe que não é verdade. Colocar uma semente de soja lá não vai produzir nada. Ao passo que, quando eu faço essa conversão para a área de cultivo, as dificuldades se instalam onde? Na manutenção de matéria orgânica, na atividade biológica, na qualidade física e como matéria orgânica deriva de produção de elementos úmicos. Esse é o desafio que a gente tem principal de manutenção no nosso sistema. Nessa visão, o que a gente pode imaginar? Se eu conseguir agregar na parte de agricultura coisas que eu estou perdendo, eu posso sim ter numa área de cultivo um solo muito bom, muito melhor até mesmo que numa área nativa. Vamos dar um exemplo prático? Quem conhece petrolina? Ou tem alguém de petrolina? Ela é uma área típica que as qualidades de solo na área cultivada é muito melhor que o solo árido da área nativa. Um solo construído em si é uma matriz mineral, lógico, mantido em manejo intenso, mas com sucesso. Tudo que você medir vai ser melhor na área de cultivo. Então a gente tem que quebrar um pouco esse paradigma, que a gente sempre está piorando. Não podemos melhorar. Bom, a gente também pode olhar isso da seguinte perspectiva, uma vez que o solo ele é um elemento que supre parte da necessidade das plantas. A gente pode enxergar o desenvolvimento vegetal numa balança. De um lado da balança está exatamente processos naturais, derivados de qualidade do solo, o quanto aquele solo permite a planta se nutrir, o quanto ele estimula o crescimento, o quanto ele protege aquela planta. E do outro lado da balança está o manejo agrícola, está a nossa atividade, está os insumos que a gente usa. Então se a planta precisa de 100 partes de um nutriente X, quanto o solo dá para ela? 50? Eu ponho mais 50 e ela está nutrida. Já se meu solo perder qualidade, significa dar 100 partes que a planta precisa, ele só vai dar 20. A gente vai ter que chegar com 80. Então qualidade de solo pode ser visto por nós como um grande agente de equilíbrio de custo de produção. Por quê? A maior ou menor demanda de insumos vai aparecer pra gente de acordo com aquilo que a planta precisa pra complementar sua demanda frente ao que ela já consegue sozinha. Como é que a gente vê isso? A gente vê isso da seguinte maneira. Se eu tiver, por exemplo, uma planta que vai se desenvolver no solo que não tem patógeno de raiz, eu vou ter um tratamento de semente e eu não vou ter problema com doença. Se eu tiver um solo altamente exposto a patógenos de raiz, eu vou ter que entrar muitas vezes no sistema para segurar aquele tipo de doença. Então meu custo sobe. Então é perceptível isso quando a gente fala de qualidade de solo, esse tamponamento do sistema de produção. O desafio é prezar por qualidade de solo em momentos que a gente tem alta lucratividade, porque a gente abre mão de algumas práticas que são importantes. E aí o preço acaba caindo e o solo cai junto. A gente acaba daqui um tempo com preço ruim e solo ruim também. Aí a brincadeira fica mais trágica. Bom, o que a gente viu até agora? A gente passou por esse slide. Não sei porque ele está com animação, acho que eu esqueci de tirar, mas o foco principal é aqui, enraizamento das plantas como elemento-chave. Elemento-chave para nós, enraizamento vegetal, que é um grande perceptor, um grande sensor que nos remete à qualidade de solo. Eu posso pegar a amostra de solo e fazer mil análises ou eu posso simplesmente perguntar para a planta, como é que está o solo? E eu tenho uma resposta razoável de acordo com o nível de enraizamento que ela me apresenta. Ah, então qualquer solo pode ir para máxima qualidade ou qualquer solo pode perder totalmente a qualidade? Aí não é bem assim. Eu roubei um slide do Maurício Querubim, professor lá, colega nosso, que eu gosto bastante, ele que é o expert em qualidade de solo. que ele mostra exatamente isso daí. A gente pode ainda entender qualidade de solo como dois elementos. Uma qualidade chamada de permanente do solo, quer dizer o quê? De acordo com o processo pedológico, com as características naturais daquele solo, ele vai ter uma qualidade limitada. para mais ou para menos. Então a qualidade permanente diferencia os tipos de solo que nós temos. Vamos simplificar, solos arenosos muito mais difíceis do que solos mais argilosos. Estou sendo genérico, mas é mais ou menos para entender o que está mostrando aí. Dentro do potencial de cada solo, as práticas de manejo que a gente tem vão trazer para a gente essa qualidade dinâmica do solo. Ou seja, ele vai flutuar para cima ou para baixo dentro do potencial que ele tem dependendo de como eu uso aquele solo, o que eu faço naquele solo e assim por diante. Então é bem legal isso aí, para a gente também não sair com a ideia de que qualquer solo que eu pegar eu transformo no melhor possível ou se eu não cuidar daquele melhor solo se torna o pior possível. Existe uma flutuação dessa capacidade, dessa qualidade do solo. Bom, até aí o que a gente aprendeu? Chegamos mais ou menos na metade da nossa conversa, não sei como estou no tempo, vocês me avisam, por favor, se eu passar. O que a gente aprendeu até aí? A gente aprendeu que qualidade de solo ainda é desafio e deve ser por muito tempo. A gente aprendeu que enraizamento vegetal é fundamental. que a agricultura impõe desafios à qualidade de solo, porque muitas vezes a gente abre mão de componentes de qualidade frente à demanda de plantio, de cultivo daquela espécie. E eficiência nutricional, vocês viram ali no enraizamento, deriva de qualidade de solo. Por quê? Uma planta mais bem enraizada, num solo melhor, ela consegue acessar mais nutrientes, ela consegue acessar um volume maior de solo, ela consegue ter benefícios. Na segunda parte, eu queria explorar com vocês a pergunta assim, Como é que eu faço então para aprimorar a qualidade do solo na prática, no mundo real? E a frase final da palestra anterior também serve aqui. É fácil? Não. Mas é possível? Sim. Então é sempre o desafio a gente implementar isso em grande escala, em momentos diferentes, em situações econômicas diferentes, mas o caminho, a receita a gente tem delineado. Como tudo em agricultura, não é todo mundo na mesma trilha. O caminho é esse, existem adaptações, variações que podem ser feitas. Então vou flutuar agora aqui num tema e vou puxar para um ponto específico, de maneira vou deixar um pouco didático e demonstrativo quem está falando de qualidade de solo. Eu peguei aqui Como exemplo, só como exemplo, a questão do plantio direto. Ah, podia pegar outro exemplo? Podia pegar sistema cana? Podia. Podia pegar pecuária, lavoura? Ainda bem que eu não peguei pecuária, que foi a palestra anterior muito boa. Então eu peguei aqui o plantio direto como exemplo. Então veja, qualquer sistema de produção que a gente pegar, a gente vai estudar a literatura e vai falar assim, nossa, esse sistema é muito eficiente para prezar por qualidade de solo. Quando você faz o retrato prático, nem sempre a gente retrata o que está na literatura. Então o plantio direto está aí, todo mundo também sabe isso. Qual é a base do plantio direto? A base do plantio direto é cobertura de solo constante, preferencialmente com plantas vivas, quando você não pode e com palhada, quando você não tem água para isso ou temperatura com palhada. rotação de cultivos e o não, vou colocar o baixo revolvimento de solo, porque o não é bem difícil muitas vezes, a gente sabe disso. Então é muito interessante quando a gente pega isso e fala, simples, eu fiz uma disciplina quando fiz graduação, que era de plantio direto, toda aula começava com esse slide. Então a gente decorou, mas a pergunta é, onde a gente encontra no Brasil isso aqui sendo feito de forma correta? A gente fala que faz o plantio direto, mas aí a gente cobre o solo mais ou menos. Vamos pegar o sistema soja-algodão, será que é plantio direto? Mas o pessoal fala que não faz mais plantio direto. É igual fazer bolo de cenoura sem cenoura. Aí ele vem com gosto de ovo, você fala, por que não tá com gosto de cenoura? Por que que degrada o solo se eu deixo de fazer o plantio direto? Por que que isso aqui é chave? Isso aqui é chave pelo seguinte motivo. Se a gente fosse detalhar a importância de cada um desses fatores, a gente ia cair de novo na questão desses elementos combinados trazerem pra gente qualidade física, qualidade biológica e qualidade química do solo. Física, por quê? Estabilidade do sistema, aporte de raízes diferentes, estruturação, bioporosidade, agregados. Química, ciclagem de nutrientes, tração diferencial, matéria seca de plantas diferentes, facilitando a conversão de elementos químicos ali, pela atividade biológica, que também é super agradável para a atividade biológica a diversidade de plantas. E a estabilidade térmica, a manutenção de umidade. Então veja, eu escolhi esse exemplo, o plantio direto, porque ele é o grande ponto chave para a gente, que mostra que a gente tem sistemas que, quando feitos de forma correta, como desenvolvidos, trazem para nós componentes de qualidade de solo. e o desafio fica pra gente continuar fazendo isso de forma correta. Eu vou destacar daí, como eu disse antes, um elemento chave, matéria orgânica de solo, certo? Não vou puxar biologia, quase que eu puxei a biologia quando cheguei nessa parte da palestra, falei, não vou fazer isso, vou tentar manter na trilha de não falar de biologia hoje, deixar a biologia como vinho de brinde. Então o ponto chave tem que ser matéria orgânica de solo. Por que matéria orgânica de solo? Em sistema tropical é fundamental que a gente tenha um olhar para esse componente orgânico, que a gente sempre teve e em alguns momentos nós perdemos esse olhar para o componente orgânico. Por quê? Porque a gente acreditou na simplificação do sistema. Simplificar o sistema quer dizer, o manejo não é importante, eu tenho uma molécula X que faz um milagre e me mantém a produção. Seja essa molécula X o que for, pode ser até um micro-organismo. Então tirar a visão de sistema, de funcionamento de solo, faz a gente perder esse olhar para a matéria orgânica. E aqui eu trouxe algumas imagens que eu gosto de fazer esses paralelos para enxergar melhor as coisas. Trouxe três, não sabia qual, puse as três. Coloquei aqui um computador de bordo, quem gosta de carro que nem eu sabe quão importante, quão legal é, você até perde a noção dando e saindo. Trouxe um coração e uma caixa preta de avião. Pode escolher qualquer um dos três, é a matéria orgânica para o solo. Se eu tirar a matéria orgânica de solo, o sistema solo para, trava. E quando eu falo às vezes em cursos mais fechados, com mais tempo, eu digo o seguinte, se a gente faz agricultura num solo, a gente perde matéria orgânica de forma indefinida, inviabiliza a produção, isso entra em desertificação, a gente é tão eficiente quanto um índio nômade que deixa a área para trás e abre uma nova área para plantar. E aí o pessoal fala, será? É verdade. O nomadismo é isso, a inabilidade de se perpetuar numa área de cultivo. E será que a gente tem que chegar nisso hoje? Tem áreas que passam por isso hoje, e aí a gente tem que fazer uma análise crítica de como é que a gente encara manejo de solos dentro dessa visão. E não dá pra gente fazer manejo em solo tropical sem pensar em como estou sendo atuante na incrementação ou na perda de matéria orgânica do solo. Bom, como é que eu faço isso então? Aí eu tenho que resgatar o que eu acabei de falar pra vocês sobre rotação de culturas. Vou entrar um pouquinho mais em detalhes aí. Não posso deixar de pensar em cultivo de entrelinhas. Também achei legal que o Cristiano mostrou milho com braquiária. Veja, uma prática super interessante que fecha a conta de matéria orgânica no cerrado brasileiro, que ajuda a gente a preservar solos, aí o milho vai para R$ 200 para o saco e aí ninguém mais quer pôr braquiária no meio do milho. Ou seja, é um balanço da pressão econômica versus essa questão de sustentar a qualidade de solo. Não estou falando que não é para fazer isso, mas é para a gente sempre pensar o que a gente vai ter daqui 5 anos, 10 anos nos solos. Cultivo entre linhas é fundamental. Sistema integração, não preciso falar mais nada. Que bom que eu não escolhi ele como exemplo meu para continuar aqui. Foi muito legal a gente ver o exemplo prático de ganho de qualidade de solo, matéria orgânica, ciclagem, vegetação e no final dinheiro. Tudo junto. Então é possível casar os conceitos. Essa é a parte mais legal. Então eu vou pegar aqui rotação de culturas para a gente dar uma olhada em algumas coisas. Primeira coisa, rotação de culturas é um tema mais Complexo do que parece. Mais difícil de fazer do que parece. Porque tem duas imagens aí que são duas rotações de cultura. Lado esquerdo e lado direito. E a pergunta é, são iguais? Não, não são iguais. Isso aqui eu também uso em aula. Os alunos vão na lousa e falam, porque são diferentes, tem que explicar. Aqui não vai ter tempo para isso. Eu vou mostrar o seguinte para vocês. A figura da esquerda é uma figura com uma rotação aleatória. Por exemplo, eu gosto de plantar isso, isso, isso, ou eu ganho dinheiro com isso, isso, isso. Monta uma rotação. Eu pus três aí porque não cabia mais slide. Do lado direito, é algo muito mais arquitetado, muito mais montado, de maneira que eu tenho o quê? Plantas complementares, arquitetura de raiz, exudação radicular, produção de biomassa, relação carbono-nitrogênio da biomassa, tudo isso, soja e milho, dá certo. Suscetibilidade de patógenos, de nematóides, aí começou a quebrar a história de soja e milho. E aí eu tenho a parte interativa com a biologia do solo também importante. No sistema da direita eu enxergo essa conectividade entre as plantas. Uma beneficiando o sistema em prol da outra. E eu tenho no sistema da direita uma planta principal que é maior do que a planta 3. Todo mundo que tem experiência em área de cultivo sabe quem é a minha planta 3. Normalmente é que vai na safra, né? E as outras tem qual papel? Explorar o solo? Se possível sim, mas o principal papel das outras duas é tornar o solo o melhor possível nos seus componentes de qualidade para a planta 3 ser semeada num solo ótimo. Para que o solo seja um ambiente confortável e permita a máxima produtividade da minha planta 3, que no final do dia é o que me garante o pagamento da conta. Se eu pensar assim, eu consigo ser melhor nessa montagem de culturas que passam na minha área. Vou fazer isso em 100% das minhas áreas? Minha dica é não. Vou fazer isso em áreas que eu tenho mais problemas surgindo, aparecendo. Em áreas ótimas, que ainda tem qualidade muito boa, eu posso ser um pouco mais, ter um viés mais econômico? Posso e devo, porque no final do dia eu tenho que pagar as contas. Mas eu tenho essa possibilidade de brincar com essa arquitetura vegetal, nome bonito, inventei agora, arquitetura vegetal. que mostra pra gente que a gente pode ser eficiente em preservar a qualidade de solo e ser viável economicamente. Tem alguns exemplos de sucesso aí que estão acontecendo em alguns pontos do Brasil. Pra que eu trabalhe a parte 3, agora eu vou chegar na parte que eu quero mostrar um estudo que a gente fez, que é muito bacana. A gente não pode esquecer da questão de plantas de cobertura. Que lá atrás, quando eu me formei, era adubo verde, nome feio pra uma planta bonita. Planta de cobertura é muito mais complexo, por quê? Porque ela traz muito mais benefícios para nós. Então não vou dar aula sobre isso, mas eu queria dizer o seguinte, essas plantas são ótimas ferramentas para nós, nessa complexidade de sistema de cultivo, porque traz diversidade, plantas de família diferente, constituição diferente, são plantas que são ótimas oportunidades de cultivo onde outras plantas não cabem, por tempo ou por condição climática. Algumas que toleram até muito estresse hídrico, por exemplo. E traz um componente chave, que é a última palavrinha que está aí, de rusticidade. Lustricidade quer dizer plantas que têm uma grande autonomia e desenvolvimento, principalmente a área cultivada, o que sobrou ali é mais do que necessário para ela e que são altamente resistentes à grande maioria das pragas e patógenos das culturas comerciais. Então quebra o ciclo muito fácil de doença, de nematóide, de praga, quando eu tenho alguma dessas plantas no meu sistema. Então, qual planta eu uso? Onde eu planto? Como eu faço? Aí eu vou deixar aqui a recomendação, quem tiver interesse. Isso aqui acabou de sair, não é meu, tá? Grupo do Maurício Querubim, de qualidade do solo. Eles lançaram um guia prático de plantas de cobertura. Vocês entram num site, eu devia ter colocado aqui, chama Portal de Livros Abertos da USP. Lá vocês colocam esse nome, faz o download de graça, não paga nada, pode pegar o livro de graça. Se quiser um livro de microbiologia do solo, também está lá. Está só buscar e buscar o livro, tudo de graça, PDF de 200 páginas, tem muita informação. Então é um guia bem legal para quem pensa nisso e quer lá escolher a planta para a minha região, para a minha necessidade, ali tem um pouquinho do que cada planta faz. Bom, baseado nisso que eu tô falando, todo cientista tem dúvida daquilo que ele faz, né. Vocês sabiam que cientista não dorme as vezes, falam, será que o que eu falo tá certo? Será que eu estou falando aqui para vocês que está certo? Amanhã alguém vai falar que está tudo errado. E faz parte, uma fração do que a gente falar estar errado, que a ciência vai crescendo. Mas eu resolvi estudar um pouquinho essa questão de plantas de cobertura num trabalho com aluno de mestrado. Por quê? Porque a gente via benefício em campo e eu falei, eu quero testar isso no experimento controlado. O que a gente fez? O Caio, agora ele está no doutorado, mas o mestrado dele fez um ensaio em casa de vetação, com planta de cobertura, com a seguinte ideia, nós vamos submeter diferentes tratamentos a dois ciclos de plantas de cobertura e um terceiro ciclo de soja, no mesmo vaso. Bem limitado, bem acadêmico, para isolar um monte de fatores e ver só o papel da planta. Então aí nós temos os tratamentos, vejam, as cores indicam as plantas, não precisa saber qual é, né? Então são plantas diferentes e a última linha de baixo tudo verde porque é soja. Na direita da tela, você tem SC, sem cobertura, solo descoberto. A gente tirava tudo que nascia. VE, vegetação espontânea, só as plantas daninhas. Planta daninha e planta de cobertura de preguiçoso, né? Falar que é pra ter diversidade de planta e deixa a planta daninha. É uma forma biomassa, né? Não tem nada de bom pra gente. E o último, que é tudo verde, foi soja, soja, soja. Pra ver o efeito de monocultivo. Então são os controles frente a todos os tratamentos que vocês estão vendo. Então deu um experimento muito bonito, olha que foto bonita né, ele foi a noite ainda assim, deu a luz da estufa, o menino caprichou. Então você vê os vasos com planta totalmente diferente. Quando a gente desmontou os vasos, alguns deles a gente abriu pra ver. Olha o emaranhado de raiz que tinha, né? A gente colocou a parte aérea ali, deixou decompor e plantou em cima de novo. Esse aqui a gente abriu e jogou fora, mas tinha mais vaso que precisava. E foi conduzindo. Aí quando a gente plantou soja no último ciclo, dois ciclos de plantas de cobertura, 60 dias de desenvolvimento cada um, depois soja, olha que interessante. Olha a cara da soja que surgiu em cima do pousil, em cima de soja, em cima das plantas de cobertura. A gente vai ter que tutorar a soja. Então, um diferencial de crescimento muito grande. É um experimento invaso, é simplista, mas é como a gente vai, academicamente, provar o que a gente está vendo no campo. Aquela diferenciação que o Cristiano, estou roubando a fala do Cristiano porque ele acabou de falar, senão eu esqueço. Falou, a gente espera em cima do peatão uma produtividade X. Por quê? Porque já sabe de benefício que traz. Então, a gente também mediu isso. A gente mediu como? Veja, em asunças tem biomassa da planta e massa de grãos, grama de grãos por planta. Meu aluno estava doido para transformar em tonelada por hectare. Eu falei, não faça essa loucura, porque vai dar um número astronômico que não é real. Então a gente manteve com massa de grãos por planta. O que você enxerga? Eu pus em negrito os tratamentos melhores e coloquei em vermelho os tratamentos piores. Ali o solo sem cobertura é o pior. Veja, o solo descoberto é o pior. Soja em cima de soja obviamente é o pior. Nem toda combinação de planta em cobertura deu um bom resultado. mas muitas destacaram, por exemplo, os primeiros, o mix que a gente misturou plantas. A gente foi entender daí um pouquinho, isso é um trabalho em desenvolvimento, foi entender um pouquinho como se dão as características químicas desses solos da soja e biológicas também, para ver se a gente explica essa produção, esse desenvolvimento diferencial da planta. Então ali a gente tem pH, que pouco diferencia, logicamente, Teor de fósforo disponível, veja que aí eu tenho diferenças bastante interessantes, o dobro ou metade. E eu tenho V%, diferente. E atividade biológica a gente mediu em beta-glicosidase, uma das enzimas que usa para inferir atividade biológica. Também diferente. Destaque, olha a atividade biológica do solo sem cobertura. Menos da metade das outras amostras que tinham o solo coberto pela descobertura. Então veja o potencial disso de mudar a configuração do solo química e biologicamente falando. Fundamental. Então esse é o exemplo prático de estudo teórico, a gente está avançando com isso, fazendo análise de DNA, molecular, para entender um pouquinho de que organismo está respondendo, mas é bem interessante começar a entender que o que está lá no campo tem um viés teórico que sustenta esse tipo de manejo. Aqui pessoal, eu repeti o que aprendemos da outra vez e diria o que mais a gente aprendeu. Eu terminei essa palestra de montar e falei assim, cara, estou levando um monte de coisa que todo mundo já sabe. Eu montei nessa palestra o museu de grandes novidades. Por quê? Falar de correção de solo, de nutriente para enraizamento, de biologia talvez um pouco novidade, planta de cobertura, rotação de culturas, E aí eu coloquei assim, museu de grandes novidades. Apareceu essa imagem, eu falei, é bem isso. Por quê? Porque a gente continua apreciando aquilo que tem arte, no nosso caso que tem a ciência, ciência do solo. Tudo que a gente sabe de química, de física, é verdade. Não é porque a biologia surge que está errado que era química, isso é uma coisa que dá até agonia na gente de ver. E que a gente, na verdade, tem que fazer o quê? uma reanálise, uma reconstrução daquilo que a gente chama de qualidade de solo e a gente pode chegar a inovações. Por que a gente faz isso? Por que a gente erra ainda? Como eu comentei antes, a gente acaba errando porque a gente crê em papel milagroso de algumas coisas. Vou dar um exemplo prático, estou terminando, faltam mais dois slides. A pergunta que às vezes eu recebo, fertilizante acaba com a biologia do solo? Não. Mas então por que em área que tem histórico de uso de fertilizante nós temos baixa atividade biológica? Porque a partir do momento que o pessoal usa fertilizante sem ter noção da qualidade de solo é importante, ele abre mão do manejo, perde matéria orgânica, o fertilizante tampona isso, remedia os problemas temporariamente e aí a biologia vai para o espaço. Porque perdeu matéria orgânica, não foi por causa do fertilizante. É um exemplo de como é que a gente acredita em coisas pontuais e esquece de processos que acontecem em solo. Bom, fica aqui uma frase que eu deixei como mensagem final. Prover a qualidade dos solos e prover as condições necessárias para o enraizamento das plantas é construir uma base sólida da produtividade, tornando os cultivos mais resilientes frente às adversidades ao longo do processo produtivo. Por fim, pessoal, fica meus contatos, meu agradecimento pela Bsolo pelo convite e a vocês pela atenção. Obrigado. Obrigado, professor. Obrigado por ter aceito o nosso convite também.

Fernando Andreote

2022 - Abisolo

Palavras-chave:

Vídeos relacionados




Conexão Ciência
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.