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Emprego da palha de café na suplementação nutricional do cafeeiro
A crescente preocupação mundial com a acentuação das mudanças climáticas, associada aos problemas ambientais decorrente da destinação dos resíduos provenientes do processamento agroindustrial das matérias primas agropecuárias, tem levado a crescente interesse sobre as alternativas de melhor destinação desses resíduos.
As emissões de carbono provenientes da degradação dos fertilizantes contribuem com, aproximadamente, 10% do total das emissões do setor agropecuário brasileiro[1]. O emprego de resíduos das lavouras em combinação com os fertilizantes tradicionais, permite redução dessas emissões com incremento da sustentabilidade da produção.
Na cafeicultura a maior disponibilidade de resíduos orgânicos provém da palha extraída no processamento via seca (cafés naturais), havendo infinidade de estudos visando orientar quanto o seu melhor emprego. Aproximadamente, o peso da palha corresponde ao peso do café beneficiado, ou seja, o rendimento da palha é de 50% em relação ao café em coco, estimando-se que o beneficiamento de 25 sacas de café em coco ocupe o volume de 6,0m3. A produção de palha distribui-se de julho a dezembro, sendo sua maior concentração (75%) nos quatro primeiros meses de benefício[2].
Após a secagem e descanso do café colhido, ocorre o primeiro processamento (transformação do café coco em café verde), conduzido pelos próprios cafeicultores (no caso quando dispõem de estruturas de pós colheita), pelas cooperativas e associações de cafeicultores e por “maquinistas” e traders atuantes no segmento. Esse processamento consiste no descascamento, classificação e, nos casos das organizações sociais melhor estruturadas, o rebenefício (etapa em que, também, se obtêm resíduos).
Aproximadamente 330.000 cafeicultores constituem a base de produção agrícola nacional. A estrutura fundiária prevalecente nas regiões produtoras tanto nas mais tradicionais como nas novas fronteiras de expansão da lavoura (Rondônia) é a da pequena escala com emprego da mão-de-obra familiar.
Na safra 2022/23, a produção total de café no Brasil atingiu cerca de 55,0 milhões de sacas de 60 kg, concentrada nos Estados de Minas Gerais (29,0 milhões), Espírito Santo (13,0 milhões), São Paulo (5,0 milhões) e Bahia (3,4 milhões)[3].
Para estimar a quantidade de resíduos produzidos no descascamento, optou-se pelo uso de média quinquenal. Assim, a produção (arábica + robusta/conilon) para o período de 2018/19 a 2022/23 (ano cafeeiro que se inicia em setembro) foi 3,2 milhões de toneladas de café verde (ou 53,7 milhões de sc./60 kg). Assumindo que as cascas representam aproximadamente 50% do peso total do café em coco, tem-se um valor equivalente de cascas residuais obtidas após o primeiro processamento[4].
Há significativa variação na concentração de nutrientes da casca de café, podendo-se estimar em média as seguintes concentrações: ±1,0 g/kg de nitrogênio; ± 0,35 g/kg de fósforo; ± 3,50 g/kg de potássio; ± 0,35 g/kg de cálcio; ± 0,15 g/kg magnésio e ± 0,15 g/kg enxofre. Considerando que as doses recomendadas se situam acima das 5,0 t/ha de palha[5], os aportes nutricionais decorrentes da esparramação da palha do café na lavoura não são expressivos, excetuando-se o potássio[6].
A característica familiar da produção brasileira de cafeeira e, portanto, a oferta de mão de obra, possibilita o enriquecimento da palha empregando-a, por exemplo, na constituição de cama para animais estabulados (é relativamente frequente encontrar sistemas de produção em que além da lavoura de café, a família atua também com a pecuária leiteira). Após o pisoteio e incorporação de dejetos e sua parcial compostagem, transforma-se em excelente fertilizante orgânico para a lavoura. Caso sejam adicionados outros condicionantes de solo (pó de rocha, cinzas) o potencial nutricional dessa mistura aumenta substancialmente.
Evidentemente que a demanda por trabalho humano cresce com a adoção dessa alternativa de reposição da fertilidade do solo subtraída em razão da colheita. Diante das atuais cotações dos adubos provenientes da indústria petroquímica, exige-se que sua adoção seja convenientemente avaliada. Estudo conduzido por Fernandes, A. L. T. et al. Sugere:
Podem-se reduzir os níveis de N, P, K e S da adubação exclusivamente mineral, entre 6 a 44% para o N; 8 a 54% para o P; 28 a 100% para o K e de 8 a 68% para o S, com o uso de palha de café como adubo orgânico para o cafeeiro.[7]
O condicionamento propiciado pelo emprego da palha contribui na recuperação das características físicas do solo (aeração, permeabilidade, estrutura) que, quando complementados com adubação química (NPK – descontada do aporte proveniente da esparramação da palha), oferece elevada produtividade nas lavouras com redução de custos unitários (R$/sc) caso, evidentemente, estiverem sob rigoroso tratamento fitossanitário[8].
Recentemente, foi desenvolvida tecnologia de pirólise de biomassa sob baixa oferta de oxigênio produzindo-se carvão que possui tanto de propriedades nutricionais para as plantas como capacidade de condicionamento do solo[9]. Esse produto permite a redução expressiva dos volumes manuseados, concentrando dos minerais essenciais para melhor aproveitamento por parte das plantas. A palha de café tem sido dos principais ingredientes empregados na produção desse novo fertilizante.
A produção de café verde encontra-se dispersa pelo país, ainda que concentrada em cinturões mais ou menos consolidados. Esse caráter regionalizado implica na avaliação dos custos das operações de coleta, transporte e armazenamento desse resíduo. Nas situações em que não é produzido dentro do estabelecimento agropecuário, seu emprego pode se tornar economicamente inviável.
Estabelecer estratégias para a redução do impacto ambiental e das emissões de carbono no processo de eliminação de resíduos agropecuários, consiste em aspecto importante no processo de seu aproveitamento dos mesmos, devendo estar incluída nas análises e avaliações pertinentes ao tema.
Celso Luis Rodrigues Vegro
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